As exportações de países da América Latina para a China apresentaram um impressionante crescimento de 25% no primeiro trimestre de 2026, conforme revela um relatório recente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Apesar de os Estados Unidos continuarem sendo o maior comprador da região, esse aumento significativo nas vendas para o mercado chinês destaca uma mudança nas dinâmicas comerciais da América Latina. A China, que já é um parceiro comercial crucial, concentrou suas compras especialmente na América do Sul, com o Brasil assumindo uma posição de destaque nesse cenário.
O relatório do BID, divulgado na terça-feira (16), aponta que, enquanto as exportações para os Estados Unidos se sustentam principalmente nas relações comerciais com o México e a América Central, a China está cada vez mais voltada para a América do Sul. Essa tendência pode ser atribuída ao acordo de livre comércio USMCA, que facilita o acesso do México ao mercado americano, incentivando empresas dos EUA a se relocarem para o país vizinho em busca de custos mais baixos e subsídios.
O crescimento das exportações para a China não é um fenômeno isolado, mas sim um prolongamento de uma tendência que começou no final de 2025. No ano passado, as importações chinesas da América Latina se mantiveram estáveis, com um leve declínio no primeiro semestre e recuperação no segundo. Em 2025, a China foi responsável por 40% do aumento total das exportações da América do Sul, segundo o BID. Durante o governo Trump, o Brasil conseguiu um crescimento de 1,8% nas suas vendas externas, impulsionado principalmente pela demanda chinesa e por vizinhos sul-americanos.
A relevância desse crescimento é clara: a América do Sul se estabelece cada vez mais como uma fornecedora de matérias-primas para a China, enquanto os Estados Unidos pressionam a região a diminuir seus laços comerciais com Pequim, especialmente em setores como portos, minerais e tecnologia. O aumento nas exportações, no entanto, é impulsionado principalmente por preços de commodities como ouro e cobre, e não por uma diversificação significativa da base exportadora. O BID alerta que uma possível reversão nos preços dessas commodities poderia deixar a região vulnerável, especialmente em um contexto de crescente competição entre EUA e China.
Além disso, a China continua a expandir sua influência na região, como evidenciado pela recente visita do líder de Mianmar, Min Aung Hlaing, a Pequim. Durante sua estadia, Xi Jinping reafirmou o apoio à liderança militar do país e assinou 18 memorandos que abrangem áreas como transporte, livre comércio e saúde. Essa visita é vista como uma tentativa de romper o isolamento diplomático de Mianmar, que enfrenta uma guerra civil desde o golpe de 2021.
A competição tecnológica também se intensifica, com a Alibaba lançando seu primeiro conjunto de modelos de inteligência artificial para robôs, marcando sua entrada na corrida global por inovações em IA. Esse movimento representa uma mudança estratégica para a empresa, que anteriormente se concentrava em software de linguagem.
Por fim, o Partido Comunista Chinês anunciou a incorporação de uma nova vertente da doutrina de Xi Jinping, focada em disciplina e liderança unificada, em um momento crucial que antecede o próximo Congresso do partido, previsto para 2027. Essa nova abordagem visa reforçar o controle sobre as estruturas partidárias e garantir a continuidade das diretrizes estabelecidas por Xi desde 2012, quando assumiu o poder.
O cenário atual evidencia a complexidade das relações comerciais e políticas na América Latina, onde o crescimento das exportações para a China pode representar tanto uma oportunidade quanto um desafio em um mundo cada vez mais polarizado entre grandes potências.


