Post: O economista que previa jornadas de trabalho de apenas 15 horas semanais e o que deu errado

economia - John Maynard Keynes previa jornadas de trabalho de 15 horas semanais. Entenda por que sua previsão não se concretizou.
O economista que previa jornadas de trabalho de apenas 15 horas semanais e o que deu errado

O renomado economista britânico John Maynard Keynes, que viveu entre 1883 e 1946, fez previsões ousadas sobre o futuro do trabalho e da economia. Em seu ensaio “Possibilidades Econômicas para Nossos Netos”, publicado em 1930, ele imaginou um mundo onde as jornadas de trabalho seriam reduzidas a apenas 15 horas semanais, permitindo que a sociedade se concentrasse em valores como cultura, prazer e desenvolvimento pessoal, em vez da mera acumulação de riqueza.

Keynes argumentava que, com o avanço tecnológico e a acumulação de capital, a humanidade estaria a caminho de resolver o problema da escassez econômica. Ele acreditava que as necessidades materiais básicas seriam atendidas, permitindo que as pessoas buscassem um propósito maior em suas vidas. Para ele, a crise econômica da década de 1930 não era um sinal de declínio permanente, mas uma fase de transição impulsionada por rápidas transformações tecnológicas.

A economista Patrícia Pelatieri, do Dieese, destaca que o ensaio de Keynes foi um marco na análise econômica, especialmente em um período de grande pessimismo. Ele via a Revolução Industrial como um catalisador para um crescimento sem precedentes, prevendo que, em um século, os países desenvolvidos alcançariam um nível de riqueza muito superior ao de sua época.

No entanto, a visão de Keynes não se concretizou como ele esperava. Apesar do avanço tecnológico, a realidade do mercado de trabalho se mostrou mais complexa. O que ele chamou de “desemprego tecnológico” — a ideia de que a automação e a tecnologia poderiam reduzir a necessidade de trabalho humano — se tornou uma preocupação constante. Em vez de jornadas mais curtas, muitos trabalhadores enfrentam longas horas e insegurança no emprego.

O sociólogo Paulo Niccoli Ramirez, que leciona na FESPSP e na ESPM, observa que a perspectiva de Keynes desafiava o dogma da economia clássica, que associa mais trabalho a mais riqueza. Ele acreditava que a tecnologia poderia permitir uma redução na carga horária, resultando em uma melhor qualidade de vida para os trabalhadores. No entanto, a realidade atual mostra que, mesmo com a automação, a luta pela sobrevivência e a busca por um equilíbrio entre trabalho e lazer continuam a ser um desafio para muitos.

A visão otimista de Keynes sobre o futuro da economia e do trabalho nos leva a refletir sobre como a sociedade pode se adaptar às mudanças tecnológicas. O dilema de como utilizar o tempo livre conquistado pela produtividade ainda persiste. A pergunta que fica é: como a humanidade lidará com essa nova realidade? Com a crescente automação e a possibilidade de jornadas mais curtas, será que conseguiremos encontrar um equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, ou continuaremos presos a um sistema que valoriza mais a produção do que o bem-estar? O legado de Keynes nos convida a repensar o futuro do trabalho e a importância de priorizar a qualidade de vida em um mundo em constante transformação.

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