O documentário “No me llame Ternera”, do jornalista espanhol Jordi Évole, traz à tona uma das feridas mais profundas da história contemporânea da Espanha: o terrorismo da ETA. Disponível na Netflix, a obra se destaca por sua abordagem reflexiva, ao invés de um mero espetáculo de confronto. Évole, conhecido por suas entrevistas com figuras políticas e sociais de destaque, agora se depara com um tema delicado ao entrevistar Josu Urrutikoetxea, mais conhecido como Josu Ternera, um dos líderes da ETA condenado pela Justiça francesa.
A ETA, fundada em 1959 durante a ditadura de Francisco Franco, se tornou um dos grupos terroristas mais notórios da Europa Ocidental, responsável por mais de 850 mortes ao longo de sua trajetória. O documentário não apenas explora o passado violento da organização, mas também questiona a ética de entrevistar um ex-terrorista. A decisão de Évole em conceder uma plataforma a Ternera gerou debates acalorados na sociedade espanhola: estaria ele dando voz a um criminoso ou contribuindo para uma reflexão histórica?
A abordagem de Évole se afasta do sensacionalismo. Ele se concentra em perguntas longas e insistentes, permitindo que o entrevistado revele suas contradições. A dinâmica da entrevista transforma-se em um exercício de jornalismo que desafia a ideia de que entrevistar um terrorista significa concordar com suas ações. Ao invés disso, o jornalista busca desmascarar as justificativas e evasivas de Ternera, permitindo que o público tire suas próprias conclusões sobre a complexidade do tema.
O documentário não procura absolver Ternera, mas sim expor as nuances de sua narrativa. Ao dar espaço para que ele fale, Évole permite que o espectador perceba as falácias e as memórias convenientes do ex-dirigente. Essa abordagem não apenas enriquece a discussão sobre a ETA, mas também levanta questões sobre a responsabilidade do jornalismo em lidar com figuras controversas. A obra é um convite à reflexão, não apenas sobre o passado da ETA, mas sobre como a sociedade lida com suas memórias e narrativas.
Jordi Évole, com seu estilo característico, transforma a entrevista em um espaço de reflexão, onde a pergunta central não é se devemos ou não entrevistar um terrorista, mas como fazê-lo de maneira que promova uma compreensão mais profunda dos eventos e das pessoas envolvidas. “No me llame Ternera” é, portanto, mais do que um documentário; é um chamado à responsabilidade e à reflexão crítica sobre a história e suas repercussões no presente.




