Na manhã de quarta-feira (26), uma enchente repentina atingiu o Nepal e o Tibete, resultando em centenas de mortos e desaparecidos. Imagens do desastre mostram a correria das pessoas momentos antes de uma gigantesca massa de lama invadir comunidades, causando destruição em pontes, edifícios e outras estruturas. Inicialmente, acreditava-se que um terremoto fosse a causa do evento, mas investigações posteriores revelaram que se tratava de um “colapso glacial”. O diretor do Centro de Estudos de Desastres da Universidade Tribhuvan, Basanta Raj Adhikari, alertou sobre a possibilidade de novas ondas de inundações nos dias seguintes. Embora não haja previsão de chuvas intensas, deslizamentos de terra podem ocorrer. “Estamos monitorando a situação, mas não esperávamos que isso acontecesse em um dia específico”, afirmou Adhikari, que mantém diálogo com colegas na China. A região do Himalaia é particularmente vulnerável a desastres naturais devido à sua geografia. O país já enfrenta perdas significativas, com centenas de vidas em risco. Inicialmente, porta-vozes do governo e agências de geologia atribuíram a enchente a um terremoto, que foi registrado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) com magnitude 4,4. Contudo, o USGS corrigiu a informação, esclarecendo que o tremor foi uma consequência do deslocamento de gelo e detritos. O evento sísmico causado pelo colapso glacial foi avaliado em magnitude 5,2 e ocorreu próximo à fronteira entre o Nepal e a China. Uma grande parte de uma geleira se desprendeu, descendo pelo vale e incorporando gelo, pedras e sedimentos. Essa hipótese é corroborada por imagens de satélite que mostram a destruição. Simon Cook, professor de glaciologia da Universidade de Dundee, destacou que um colega observou a perda de uma parte inferior da geleira na quarta-feira. Essa evidência sugere que um colapso glacial ocorreu, e não uma avalanche provocada pelo terremoto. A massa de gelo e detritos bloqueou temporariamente o rio Lhende Khola. Quando o bloqueio se rompeu, uma onda colossal de água, gelo e lama se espalhou pelo vale. A geografia da região, caracterizada por vales estreitos e terrenos íngremes, favorece a rápida propagação dessas ondas. Embora os cientistas ainda precisem confirmar todos os detalhes, a influência das mudanças climáticas no desastre é uma preocupação crescente. Cook mencionou que a equipe ficou impressionada com a magnitude do evento e lembrou que desastres semelhantes têm ocorrido em várias regiões montanhosas do mundo. O aquecimento global pode estar contribuindo para a degradação do permafrost, que mantém a estabilidade das encostas. Com o derretimento das geleiras, o Nepal perdeu quase um terço de seu volume de gelo nas últimas três décadas, e as geleiras estão derretendo em um ritmo 65% mais rápido entre 2011 e 2020, conforme dados da ONU. A região da fronteira entre o Nepal e a China é propensa a desastres naturais devido à sua geografia montanhosa e às intensas chuvas da monção, que podem desestabilizar encostas e interagir de forma complexa com os sistemas fluviais e as geleiras. Os cientistas alertam que esses desastres em cadeia podem se intensificar com as mudanças climáticas.



