O Brasil caminha por uma trajetória fiscal preocupante que pode levar o país a enfrentar desafios semelhantes aos que afetaram diversas economias europeias após a crise financeira global de 2008. Entre 2010 e 2011, países como Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália foram forçados a implementar planos de austeridade severos, resultando em cortes drásticos em aposentadorias, salários do funcionalismo público e investimentos sociais, tudo para evitar a insolvência. Essa situação gerou uma onda de protestos contra as medidas adotadas.
Durante a crise europeia, muitos desses países não conseguiam mais emitir títulos soberanos, mesmo oferecendo juros altíssimos, devido à desconfiança dos investidores. Para evitar um colapso na zona do euro, o Banco Central Europeu (BCE) interveio, comprando os papéis e exigindo em troca a adoção de cortes fiscais.
Atualmente, o Brasil enfrenta taxas de juros recordes em títulos de longo prazo emitidos pelo Tesouro, o que gera preocupações entre economistas que consideram essa situação “assustadora” e “insustentável”. A principal diferença entre a crise europeia e a situação brasileira é que os países europeus utilizavam o euro e estavam sujeitos às regras do BCE, o que limitava suas opções de desvalorização da moeda e impressão de dinheiro para cobrir déficits.
Embora o Brasil tenha a capacidade de desvalorizar sua moeda, isso poderia desencadear uma crise cambial e inflacionária, resultando em uma recessão severa, conforme alertam especialistas. No auge da crise na zona do euro, os cortes fiscais foram a única solução para as nações que perderam o controle de suas contas e o acesso ao mercado de crédito internacional. Por exemplo, a Grécia viu seu PIB encolher 26%, com aposentadorias cortadas em até 20% e salários públicos reduzidos em 35%.
Em Portugal e na Irlanda, o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) foi elevado para mais de 23%, o que prejudicou o consumo. Espanha e Itália aumentaram a idade mínima de aposentadoria para conter o rombo previdenciário. O resultado foi uma recessão crônica e taxas de desemprego recordes.
Embora o Brasil tenha conseguido evitar uma crise severa até agora, devido a superávits primários no passado, o atual cenário macroeconômico acende um sinal de alerta. Com um déficit nominal em torno de 9% do PIB e uma dívida pública bruta superior a 80% do PIB, os indicadores estão se aproximando dos níveis que desencadearam as crises fiscais na Europa.
Marcello Estevão, diretor-gerente do Instituto de Finanças Internacionais, alerta que o governo brasileiro parece não compreender a gravidade da situação. Ele ressalta que, apesar do crescimento econômico entre 2% a 3% ao ano e do desemprego baixo, o país precisa urgentemente de reformas fiscais antes que seja tarde demais. Estevão afirma que, historicamente, ajustes sérios só são feitos em momentos de crise.
Ele destaca que, embora o Brasil tenha realizado reformas trabalhistas e previdenciárias e possua instituições estáveis, a falta de um ajuste fiscal significativo pode levar a um agravamento da situação econômica. A composição do déficit brasileiro é estrutural, impulsionada por despesas obrigatórias crescentes, que consomem cerca de 95% do orçamento, e pela elevada carga de juros necessária para rolar a dívida pública, que gira em torno de R$ 1 trilhão em 12 meses.
A perda de confiança dos investidores pode desencadear um ciclo vicioso de desvalorização cambial, inflação e juros ainda mais altos. Samuel Pessôa, colunista da Folha e pesquisador do BTG Pactual, critica a atual gestão, afirmando que o governo está repetindo erros do passado que levaram a uma das maiores crises do Brasil entre 2015 e 2016, quando a economia encolheu 7,2% devido ao descontrole fiscal.
A situação atual é preocupante, com os juros pressionando as empresas e os bancos rolando dívidas enquanto aguardam um ajuste em 2027. Se esse ajuste não ocorrer, há o risco de uma ruptura no mercado de crédito corporativo. Armando Castellar, pesquisador do Ibre-FGV, observa que, embora o Brasil tenha um déficit em suas transações correntes menor do que o que os países europeus enfrentavam, a necessidade de um ajuste fiscal que reduza o déficit interno e a conta de juros é urgente. Caso contrário, o país pode enfrentar uma crise cambial que elevará a inflação e o desemprego.


