A educadora Dandara Zainabo, de 28 anos, compartilha a experiência traumática dos cinco anos que passou presa no Rio de Janeiro. Como mulher trans, ela enfrentou desafios adicionais, dividindo uma cela em uma unidade masculina. Em liberdade, Dandara transformou sua vivência no cárcere em uma atuação política significativa, dedicando-se à elaboração de propostas para a segurança pública que visam impactar líderes de diversos países.
Essa iniciativa inovadora é promovida pela ONG Incarceration Nations Network (INN), que apresentou a Global Freedom Consulting Agency, uma consultoria de segurança pública composta exclusivamente por pessoas que já passaram pelo sistema prisional. A apresentação ocorreu em abril na Cidade do Cabo, na África do Sul, um local escolhido simbolicamente devido ao seu histórico de segregação racial. A consultoria reúne 34 egressos de 19 países, incluindo dois brasileiros, todos selecionados por seus projetos de destaque nas áreas de justiça e segurança.
Baz Dreisinger, fundadora da INN e professora na Escola John Jay de Justiça Criminal da Universidade da Cidade de Nova York, afirma que a consultoria representa uma abordagem inédita na discussão sobre segurança pública. “Esses profissionais têm a oportunidade de atuar junto a governos que buscam desenvolver políticas públicas de justiça baseadas em experiências reais do encarceramento”, explica Dreisinger. “Esperamos que essa consultoria transforme vidas, transcendendo muros e fronteiras.”
Os consultores podem ser contratados por diversas entidades, incluindo fundações, think tanks e agências governamentais, para desenvolver projetos que priorizem a justiça restaurativa. Essa abordagem visa reparar os danos causados por crimes ou conflitos, promovendo o envolvimento de vítimas, infratores e a comunidade em processos de diálogo, ao invés de focar apenas na punição.
Dandara Zainabo destaca que o debate atual sobre segurança pública frequentemente se concentra em mecanismos de punição, negligenciando aspectos cruciais como raça, gênero e desigualdade. Ela acredita que as autoridades falham ao não considerar esses fatores ao elaborar políticas de segurança. A consultoria representa uma oportunidade de incorporar vozes e experiências de quem viveu o sistema carcerário, promovendo uma mudança significativa nas abordagens de segurança pública ao redor do mundo. Essa iniciativa não apenas oferece uma nova perspectiva sobre segurança pública, mas também busca humanizar o debate, trazendo à tona as vozes de quem realmente entende os impactos do encarceramento. Com isso, espera-se que as políticas desenvolvidas sejam mais justas e eficazes, refletindo as necessidades e realidades das comunidades afetadas.



