O setor de combustíveis no Brasil se consolidou como uma das principais fontes de receita do crime organizado, superando até mesmo o tráfico de cocaína. Com uma receita anual que ultrapassa R$ 60 bilhões, esse segmento representa cerca de 40% dos ganhos das facções criminosas, conforme dados do Atlas da Violência de 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O tráfico de cocaína, por sua vez, corresponde a apenas 10% dessa receita, evidenciando uma mudança significativa nas dinâmicas do crime no país.
A operação Fluxo Oculto, realizada na última quinta-feira (28), tem como alvo a sofisticada rede de fraudes no setor de combustíveis, que inclui a lavagem de dinheiro através de fintechs e fundos de investimento. O Atlas da Violência destaca que as organizações criminosas estão cada vez mais inseridas nas cadeias produtivas legais, o que torna a fiscalização e a repressão mais complexas. “O andar de cima se profissionalizou: as lideranças estruturaram redes sofisticadas de lavagem de dinheiro, infiltração em mercados formais e conexões políticas”, afirma o relatório.
O promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), João Paulo Gabriel, explica que as fintechs têm contribuído para a blindagem patrimonial das facções. Essas instituições financeiras possibilitam a movimentação de grandes quantias de dinheiro, facilitando a redistribuição de recursos entre diversas contas. Após a primeira fase da operação Carbono Oculto, que ocorreu em agosto do ano passado, foi identificada uma movimentação de R$ 4 bilhões que saíram de fintechs investigadas para outras instituições financeiras, evidenciando a capacidade de adaptação das organizações criminosas.
O estudo do Fórum de Segurança Pública revela que a receita anual gerada por atividades ligadas a combustíveis e lubrificantes é estimada em R$ 61,5 bilhões, o que representa 41,8% dos negócios das facções. Em comparação, o tráfico de cocaína gerou cerca de R$ 15 bilhões entre 2022 e 2023, o que representa apenas um quarto do que o crime organizado arrecadou com a exploração do setor de combustíveis.
Além disso, o crime organizado no Brasil movimenta aproximadamente R$ 350 bilhões anualmente, considerando também os roubos de celulares e crimes digitais. O Atlas da Violência aponta que, embora o número de roubos reportados tenha caído pela metade entre 2018 e 2024, os estelionatos, especialmente os virtuais, aumentaram mais de cinco vezes, refletindo uma mudança no modus operandi do crime.
O especialista em segurança pública, Wagner Mesquita, destaca que a migração das facções para setores com menor repressão estatal e baixa reprovação social é uma estratégia que tem se mostrado eficaz. “Atividades como o contrabando de cigarros, por exemplo, geram lucros comparáveis aos do narcotráfico, mas sem a mesma percepção negativa da sociedade”, afirma. Essa mudança de foco também se relaciona com o modelo adotado pelas milícias no Rio de Janeiro, que ampliaram seu controle sobre serviços clandestinos.
A complexidade das investigações sobre combustíveis e fintechs exige uma separação clara entre operações legais e ilegais. Mesquita ressalta que a polícia precisa identificar e diferenciar as atividades ilícitas, o que torna as apurações mais desafiadoras. “Hoje, o Estado possui estrutura e legislação específicas para combater o tráfico de drogas, mas crimes ligados a combustíveis e operações financeiras requerem investigações mais complexas”, conclui.
Diante desse cenário, a expansão das facções para o garimpo ilegal e outros mercados paralelos se torna uma preocupação crescente. A intersecção entre o crime organizado e setores formais da economia exige uma resposta robusta das autoridades para enfrentar essa nova realidade.


