A reflexão de Sêneca, “não é que tenhamos pouco tempo, nós que o desperdiçamos”, ressoa de forma impressionante na sociedade contemporânea. Atualmente, muitos sentem uma crescente sensação de falta de tempo, e a frustração se intensifica com a expectativa de que tecnologias, como a inteligência artificial, deveriam aliviar a carga de trabalho, mas, na verdade, parecem agravar a situação.
A história nos ensina que a introdução de novas tecnologias nem sempre resulta em maior eficiência. Em 1983, a historiadora Ruth Cowan demonstrou que a chegada de eletrodomésticos, em vez de reduzir o trabalho doméstico, elevou os padrões de limpeza, tornando as tarefas mais extenuantes. Uma pesquisa da Microsoft, realizada em 2025, revelou que ferramentas de comunicação instantânea, como videoconferências, ampliaram a jornada de trabalho, muitas vezes invadindo horários antes considerados sagrados, como as noites e madrugadas.
Nesse cenário, a medição do uso do tempo tornou-se uma questão de política pública em diversos países. Nos Estados Unidos, a “American Time Use Survey” é realizada anualmente, revelando um declínio no tempo dedicado à sociabilidade, enquanto o uso de telas cresce exponencialmente. Na Coreia do Sul, a situação é ainda mais alarmante, com a população enfrentando uma redução no tempo de sono.
No Brasil, a falta de uma pesquisa abrangente sobre o uso do tempo é notável. Embora tenham sido realizados estudos piloto, eles não capturam a totalidade da questão. Países que realizam essa medição transformam os dados em políticas públicas concretas, estabelecendo metas e diretrizes. A recente constitucionalização da redução da jornada de trabalho no Brasil destaca o paradoxo de um país que nunca fez uma pesquisa completa sobre como seus cidadãos utilizam o tempo.
Um estudo de 2020, conduzido por Laura Giurge, Ashley Whillans e Colin West, concluiu que a percepção de pobreza temporal impacta negativamente o bem-estar, mais do que a falta de emprego. Em outras palavras, mesmo com o aumento da renda, a sensação de pressa e falta de tempo pode limitar a felicidade. Outro experimento, liderado por Whillans, mostrou que ao oferecer a voluntários a opção de gastar dinheiro para comprar produtos ou tempo, a maioria optou por produtos, mesmo que a compra de tempo resultasse em maior satisfação.
A realidade é que os momentos de descanso se tornaram fragmentados. Com a constante interrupção de notificações e alertas, uma hora livre pode se transformar em pequenos intervalos de cinco a seis minutos, gerando um fardo cognitivo adicional. Em um contexto como o da Nigéria, um provérbio iorubá resume bem a situação: “ninguém consegue amarrar o dia com uma corda”. Isso reflete a realidade de muitos, que sentem que o tempo escasso não pode ser controlado ou aproveitado adequadamente.




