O Brasil possui características únicas que o posicionam como um ator relevante no cenário global de energia, alimentos e minerais. Com uma matriz elétrica predominantemente renovável e vastos recursos em energia solar e eólica, além de reservas de petróleo, gás e biocombustíveis, o país se destaca por seu potencial. No entanto, para que esse potencial se converta em benefícios reais para a população, é essencial que o desenvolvimento econômico seja acompanhado de uma gestão responsável e sustentável, que minimize os impactos ambientais e maximize os benefícios sociais.
Os projetos energéticos têm um impacto significativo nas comunidades que os acolhem. A chegada de trabalhadores pode impulsionar o comércio local e abrir oportunidades para pequenos negócios, mas também pode gerar uma demanda crescente por moradia e serviços públicos. Ignorar esses efeitos até após a instalação de um projeto significa perder a chance de preparar a população para aproveitar os benefícios que surgem.
Nesse sentido, é crucial que a gestão ESG (Ambiental, Social e de Governança) das empresas inclua uma análise do impacto territorial. Relatórios que apenas destacam investimentos e empregos gerados, sem considerar quantos moradores realmente tiveram acesso a essas oportunidades, não oferecem uma visão completa. A observação do que ocorre fora das operações permite compreender melhor os impactos e identificar as capacidades que podem sustentar a economia local. O papel do poder público é planejar e garantir direitos, sempre em diálogo com a sociedade.
Nesse contexto, sugiro o conceito de Município ESG Friendly, que se refere a uma gestão municipal que articula suas políticas e compreende os ativos e vulnerabilidades do território para receber investimentos de forma responsável. A previsibilidade para as empresas depende de instituições confiáveis e da capacidade do município de atender sua população. Incentivos fiscais podem ser uma parte dessa estratégia, desde que seus resultados sejam monitorados adequadamente.
Além disso, a mudança climática impõe uma condição inadiável a esse planejamento. Estradas interrompidas por enchentes afetam o escoamento da produção e o deslocamento de moradores, enquanto períodos prolongados de seca comprometem atividades econômicas e o abastecimento. Preparar o território exige decisões informadas sobre o uso do solo e investimentos fundamentados em evidências, especialmente em áreas onde novos projetos aumentam a pressão sobre recursos já escassos.
A transição energética justa também requer tempo para a formação de pessoas. Se a qualificação começa apenas quando as vagas já foram abertas, os empregos mais especializados tendem a ser ocupados por profissionais de fora da região. O mesmo se aplica aos pequenos negócios, que precisam entender as exigências das cadeias produtivas e estar preparados para atendê-las. A riqueza gerada localmente deve contribuir para a construção de alternativas para quando o ciclo de investimentos mudar.
O desenvolvimento territorial sustentável depende da capacidade de transformar investimentos em oportunidades que permaneçam no município. Para isso, a agenda ESG das empresas deve considerar os efeitos de suas atividades na vida local, enquanto o poder público cria condições para que moradores e pequenos negócios possam participar dos benefícios gerados. Assim, o legado de um empreendimento será medido pelas oportunidades que permanecerem no território, mesmo após o término do investimento.
Por fim, o editor Michael França convida os leitores a refletirem sobre a importância da música na construção de identidades e contextos sociais. Neste texto, a música escolhida por Augusto Cruz é “Refazenda”, de Gilberto Gil, que ressoa com a temática do desenvolvimento sustentável e a conexão com a terra.



