A inteligência artificial (IA) tem conquistado uma popularidade surpreendente em diversas partes do mundo, especialmente em países em desenvolvimento. Uma pesquisa recente realizada pela GlobeScan, em 34 países, revela que, ao contrário da visão pessimista predominante em nações ocidentais como Estados Unidos, Canadá e França, muitos cidadãos em regiões menos favorecidas veem a tecnologia com otimismo. Essa diferença de percepção é notável e merece ser explorada.
Um exemplo claro desse otimismo é o testemunho de Bae Oh-do, um vendedor de violinos de 70 anos em Seul, que cresceu em um ambiente rural e viu a transformação tecnológica ao longo das décadas. Para ele, a IA não representa uma ameaça, mas sim uma oportunidade de avanço. Essa visão é compartilhada por quase dois terços dos sul-coreanos, conforme a pesquisa da GlobeScan. Em países como Nigéria e Vietnã, esse sentimento positivo é ainda mais acentuado, com quase 90% das pessoas acreditando que a IA pode melhorar suas vidas e a humanidade.
Por outro lado, a pesquisa também destaca que nos países ricos, a percepção sobre a IA é mais negativa. Nos Estados Unidos, por exemplo, mais pessoas expressam preocupações sobre os impactos da tecnologia do que aquelas que veem benefícios. Essa diferença pode ser atribuída a uma série de fatores, incluindo a experiência direta com a tecnologia e as expectativas em relação ao futuro.
A pesquisa da Gallup, em parceria com a Microsoft, corroborou esses achados, apontando que, embora a IA seja popular em geral, a aceitação é menor nos países ocidentais. Essa disparidade levanta questões sobre o que pode estar por trás do otimismo em nações em desenvolvimento. Parte da resposta pode estar relacionada ao fato de que muitos trabalhadores nesses países têm menos a perder com a automação, já que muitos empregos são informais e precários.
Além disso, a IA oferece oportunidades significativas para aqueles que enfrentam desafios em ambientes com instituições e educação formal limitadas. Em regiões onde a tecnologia pode facilitar o acesso a informações e serviços, o otimismo em relação à IA é palpável. Payal Arora, autora de “From Pessimism to Promise”, argumenta que o pessimismo é um privilégio de quem pode se dar ao luxo de perder a esperança.
Na Índia, por exemplo, um número crescente de pessoas tem acesso a aplicativos de IA, como o Gemini e o ChatGPT, com quase 20% da população em idade ativa utilizando essas ferramentas no segundo trimestre de 2026. Essa adoção é um reflexo do potencial da IA para transformar vidas, mesmo em contextos desafiadores.
A censura e a regulação da IA também parecem ser menos comuns fora dos Estados Unidos e da Europa. Yuen Yuen Ang, da Universidade Johns Hopkins, observa que a IA desafia o monopólio do conhecimento que historicamente caracterizou o Ocidente, levantando questões sobre quem realmente se beneficia dessa transformação.
Outro fator que contribui para a aceitação da IA em países em desenvolvimento é a escassez de mão de obra. Regiões com baixas taxas de natalidade, como o leste asiático, estão envelhecendo rapidamente, e muitos veem a IA como uma solução para preencher a lacuna deixada por uma força de trabalho em declínio.
Por fim, a diferença na comunicação sobre a IA entre líderes ocidentais e asiáticos pode influenciar a percepção pública. Enquanto os executivos de tecnologia nos EUA frequentemente alertam sobre os riscos da IA, seus colegas asiáticos tendem a focar nas aplicações práticas e nos benefícios que a tecnologia pode trazer para a sociedade, criando um ambiente mais propício à aceitação.
Em suma, a popularidade da IA varia amplamente ao redor do mundo, refletindo não apenas as experiências individuais com a tecnologia, mas também as expectativas culturais e sociais. À medida que a IA continua a evoluir, será crucial observar como essas percepções se desenvolvem e o impacto que terão nas sociedades ao redor do globo.



