Post: Desmatamento ameaça tradição e identidade indígena na produção de cocares

O desmatamento e queimadas comprometem a produção de cocares, essenciais para a cultura indígena, alertam artesãos no ATL.
Valter Campanato/Agência Brasil" title="Valter Campanato/Agência Brasil">

O Acampamento Terra Livre (ATL), encerrado em 11 de abril de 2026 em Brasília (DF), serviu como palco para um alerta crucial de artesãos indígenas: o avanço do desmatamento e das queimadas está impactando diretamente a produção de cocares, peças fundamentais para a cultura e identidade de seus povos. A diminuição drástica da população de aves nos territórios indígenas reflete uma crise ambiental que transcende a natureza, atingindo o coração das tradições ancestrais.

Lideranças indígenas denunciam que a degradação ambiental é impulsionada por grileiros, invasores e pelo uso indiscriminado de agrotóxicos, resultando em um cenário de escassez de penas, matéria-prima essencial para a confecção dos cocares. Este problema não é apenas ecológico, mas também cultural e social, ameaçando a transmissão de conhecimentos e a própria expressão da identidade indígena.

A Voz da Tradição e a Escassez de Penas

Tapurumã Pataxó, um artesão de 32 anos da Aldeia Barra Velha, em Porto Seguro (BA), é um dos que sentem na pele essa mudança. Ele, que aprendeu a arte de fazer cocares com seus avós na infância, hoje lamenta a ausência de aves como maritacas e araras, cujas penas são tradicionalmente utilizadas. “Os fazendeiros estão acabando não só com o nosso território, mas com o Brasil todo”, desabafa Tapurumã, conectando a situação atual a um histórico de desmatamento que remonta a 1500.

A produção de cocares depende de um ciclo natural: os artesãos coletam as penas que caem naturalmente dos animais, sem prejudicá-los. Contudo, com a redução das populações de aves devido às queimadas criminosas e à destruição de habitats, esse processo se torna cada vez mais difícil. A comunidade de Tapurumã, por exemplo, busca ativamente projetos ambientais para a reinserção de aves no ecossistema, uma medida paliativa diante da magnitude do problema.

Impacto Ambiental: Desmatamento, Queimadas e Agrotóxicos

A gravidade da situação é reforçada pelo relato de Ahnã Pataxó, 45 anos, da Aldeia Velha, também em Porto Seguro (BA). Ela conta que a escassez de penas é tamanha que, por vezes, é preciso recorrer a zoológicos para conseguir o material. “É uma tristeza muito grande você ver que os animais que eram livres estão hoje em uma área fechada por causa do desmatamento e da falta de consciência ambiental do ser humano”, lamenta a artesã, que sente falta de aves como o gavião real, a arara e o papagaio em seu dia a dia.

As mudanças climáticas também desempenham um papel crucial. Keno Fulni-ô, 40 anos, de uma aldeia próxima a Águas Belas (PE), observa que o comportamento de aves como o gavião, caracará, garça e anu tem sido alterado. A instabilidade ambiental afeta diretamente a vida selvagem, tornando a coleta de penas ainda mais imprevisível. Em encontros como o ATL, a troca de penas entre artesãos de diferentes regiões se torna uma estratégia vital para manter a produção, evidenciando a interdependência e a resiliência dos povos indígenas.

Cocar: Símbolo de Identidade, Resistência e Aliança

Para os povos indígenas, o cocar vai muito além de um adorno; é um objeto carregado de profundo significado cultural e espiritual. Tapurumã Pataxó explica que a peça simboliza a identidade e a proteção de seu povo. “O cocar tem o sentido de nossa resistência. É o que nos protege e nos dá força pra lutar pelos nossos direitos, pela educação e pela demarcação do nosso território”, afirma, ressaltando a conexão intrínseca entre o objeto e a luta por sua existência.

Ahnã Pataxó complementa, revelando que o cocar é um símbolo de aliança em casamentos tradicionais, substituindo a aliança de metal. A costura das penas, uma a uma, representa a união de todo o povo. Dada essa importância, os artesãos fazem um apelo por respeito ao uso do cocar por não-indígenas. “Um não indígena comprar para ficar usando como se fosse um indígena não é legal”, alerta Tapurumã, enquanto Keno Fulni-ô pede que o cocar não seja associado a contextos de lazer desrespeitosos, como festas ou carnaval.

A confecção do cocar é um ato de conexão e aprendizado, como demonstra Aalôa Fulni-ô, um jovem de 21 anos que aprendeu a arte aos 14. Enquanto costurava um cocar com penas de papagaio no ATL, ele expressou o bem-estar que a atividade lhe proporciona. “Eu me sinto muito bem em fazer. Acaba com estresse, me relaxa. Somos a voz do nosso povo e uma só família”, disse, evidenciando a dimensão terapêutica e comunitária do artesanato. A Agência Brasil, presente no evento, testemunhou a habilidade e a paixão do jovem.

A Luta Contínua pela Consciência Ambiental

A crise na produção de cocares é um sintoma visível de um problema maior: a destruição dos biomas brasileiros e a ameaça à biodiversidade. A voz dos artesãos indígenas no Acampamento Terra Livre ressoa como um chamado urgente à conscientização ambiental e à proteção dos territórios. A preservação das florestas e da fauna não é apenas uma questão ecológica, mas uma garantia da continuidade cultural e da sobrevivência de povos que são guardiões de saberes milenares.

A luta pela demarcação de terras, pela fiscalização contra invasores e pela implementação de políticas ambientais eficazes é intrínseca à capacidade dos povos indígenas de manterem suas tradições, incluindo a produção de cocares. Ações de educação ambiental e o apoio a projetos de recuperação de ecossistemas são passos essenciais para garantir que as futuras gerações possam continuar a honrar sua herança cultural, com aves livres nos céus e penas abundantes para seus símbolos de resistência.

Para se manter informado sobre as questões indígenas, o meio ambiente e outros temas relevantes que moldam a sociedade brasileira, continue acompanhando o Clique Agora. Nosso compromisso é trazer informação de qualidade, contextualizada e aprofundada, para que você esteja sempre por dentro dos fatos que importam.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias

Pesquisas nucleares da USP serão temporariamente transferidas para Belo Horizonte

Pesquisas nucleares da USP serão temporariamente transferidas para Belo Horizonte

Pesquisas do reator nuclear da USP serão temporariamente realizadas em BH devido a reparos.

Justiça autoriza cobrança de imposto sobre exportação de petróleo no Brasil

Justiça autoriza cobrança de imposto sobre exportação de petróleo no Brasil

Justiça Federal do Rio de Janeiro libera cobrança de imposto de 12% sobre exportação de petróleo, impactando a economia.

Tragédia na Band revela precarização do jornalismo, afirma Fenaj

Tragédia na Band revela precarização do jornalismo, afirma Fenaj

Morte de equipe da Band revela precarização do jornalismo e riscos enfrentados pelos profissionais.

Israel bombardeia 129 unidades de saúde no Líbano em 45 dias de conflito

Israel bombardeia 129 unidades de saúde no Líbano em 45 dias de…

guerra - Israel bombardeou 129 unidades de saúde no Líbano, resultando em mortes e feridos. Entenda o impacto do conflito.

Cessar-fogo no Líbano é atribuído à união do Eixo da Resistência, dizem Irã e Hezbollah

Cessar-fogo no Líbano é atribuído à união do Eixo da Resistência, dizem…

Irã e Hezbollah atribuem cessar-fogo no Líbano à união do Eixo da Resistência, destacando a importância do contexto regional.

Declaração do IRPF: modelo completo ou simplificado, qual escolher?

Declaração do IRPF: modelo completo ou simplificado, qual escolher?

imposto - Saiba qual modelo de declaração do IRPF é mais vantajoso: completo ou simplificado? Entenda as diferenças e faça a melhor…