Post: África alcança recorde em energia solar, mas dados oficiais não refletem crescimento, aponta relatório

África registra recorde em energia solar, mas dados oficiais não refletem crescimento, aponta relatório.
África alcança recorde em energia solar, mas dados oficiais não refletem crescimento, aponta relatório

A África está prestes a registrar um marco significativo na geração de energia solar em 2026, com a previsão de instalação de 17 gigawatts (GW) de capacidade até o final do ano. Esse número representa um aumento de 45% em relação a 2025 e equivale a 1,2 vez a capacidade da usina hidrelétrica de Itaipu. No entanto, apesar desse avanço impressionante, as estatísticas oficiais não refletem esse crescimento devido a limitações nos dados disponíveis, conforme apontam as organizações Ember e African Tech Futures Lab.

Para contornar a falta de dados atualizados, essas entidades analisaram as importações de painéis solares provenientes da China, que responde por 94% dos painéis instalados no continente. Os números revelaram que a quantidade de placas solares chinesas importadas pela África atingiu um patamar recorde, com a estimativa de que 73% dos painéis sejam instalados até seis meses após a importação, de acordo com as práticas do mercado.

As organizações estimam que, em 2025, os países africanos instalaram cerca de 12 GW de energia solar, incluindo painéis instalados em telhados. Em contraste, a Agência Internacional de Energia Renovável registrou apenas 3,8 GW para o mesmo ano, considerando principalmente grandes parques solares. “Os dados de exportação da China ajudam a dar uma ideia da ordem de grandeza correta, mas não é como você gostaria de calcular. É por isso que os governos precisam se concentrar em melhorar os dados”, afirma Dave Jones, um dos autores principais do relatório. Apenas 14 dos 54 países africanos publicaram informações sobre a capacidade solar em 2025, segundo o documento.

O relatório também indica que 75% do crescimento em energia solar registrado entre 2023 e 2025 no continente é proveniente de geração distribuída, como painéis instalados em comércios e residências, que frequentemente não são contabilizados nas estatísticas oficiais. Ao todo, 36 países africanos devem bater recordes na instalação de energia solar neste ano. Em 19 deles, o crescimento supera 100% em relação a 2025, com destaque para a República Democrática do Congo (544%), Zimbábue (282%), Egito (176%) e Zâmbia (117%).

A África do Sul continua sendo o líder em capacidade solar instalada em 2026, mas representa menos de 20% dos painéis montados no continente, evidenciando que a tecnologia está se expandindo para mais países. Jones observa que o crescimento da energia solar está reduzindo a dependência de geradores a diesel, que são não apenas poluentes, mas também se tornaram significativamente mais caros devido a fatores como a guerra no Oriente Médio e a retirada de subsídios em países como Nigéria e Egito.

O relatório estima que a importação de placas fotovoltaicas chinesas custe cerca de 2,4 bilhões de dólares (aproximadamente 11,9 bilhões de reais) por ano, valor que equivale ao gasto com geração elétrica a diesel em apenas três meses. “Os painéis solares têm uma vida útil de 30 anos ou mais, resultando em uma economia significativa nos custos”, destaca o documento.

“O diesel já não era economicamente viável, mas agora está se tornando proibitivo. Isso força quem gera eletricidade com diesel a buscar alternativas e instalar painéis solares. O papel da eletrificação na África vai realmente crescer”, complementa o pesquisador. Durante a COP31, conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas que ocorrerá em novembro na Turquia, foi proposta a meta global de alcançar 35% de eletrificação da energia até 2035. Atualmente, esse índice é de 23% globalmente, mas cai para 12% na África, segundo a Agência Internacional de Energia.

A geração solar é vista como um motor de desenvolvimento para os países africanos. “A África tem ficado para trás em termos de acesso à energia elétrica por muito tempo. Na última década, o cenário da eletrificação permaneceu praticamente o mesmo. Agora, com novas tecnologias, todo o continente pode dar um salto e fornecer eletricidade em larga escala”, afirma Jones.

Entretanto, a instalação em massa de painéis fotovoltaicos também pressiona as redes elétricas locais, que não foram projetadas para suportar cargas elevadas. Esse problema, já conhecido no Brasil, é contornado com o chamado “curtailment”, que consiste em descartar o excesso de energia limpa para manter a estabilidade do sistema. “A rápida expansão da energia solar distribuída na África Subsaariana é uma história de sucesso pouco noticiada. Contudo, como os países africanos não dispõem de dados sobre essa transformação, não estão incorporando o avanço da energia solar distribuída em seus planos”, conclui o relatório.

Especialistas sugerem que o uso de baterias para armazenar o excedente de energia pode ser a melhor forma de maximizar o aproveitamento das fontes renováveis. “Essa transição é caótica e disruptiva, muito distante do modelo ordenado previsto nas estratégias nacionais. Os formuladores de políticas públicas precisam começar a reagir a essa mudança”, afirma Joel Nana, diretor de pesquisa do African Tech Futures Lab.

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