Uma pesquisa recente do Latinobarómetro revela uma mudança significativa nas percepções dos latino-americanos sobre a influência externa em suas vidas. Pela primeira vez, a influência da China é vista de maneira mais positiva do que a dos Estados Unidos, refletindo um cenário complexo na política e economia da América Latina. A avaliação positiva da presença chinesa cresce mesmo em um contexto de ascensão da direita na região, que, em diversas eleições, optou por candidatos alinhados a ideais conservadores. No entanto, essa escolha não se traduz em um alinhamento automático com os interesses dos EUA, especialmente sob a administração de Donald Trump.
O Chile se destaca como um exemplo emblemático dessa dinâmica. Recentemente, o país elegeu José Antonio Kast, um político que é considerado próximo das ideias de Trump. Apesar disso, a pesquisa indica que 70% dos chilenos veem a influência da China de forma positiva, em contraste com apenas 46% que compartilham a mesma visão sobre os Estados Unidos. Essa discrepância não implica que o governo chileno tenha se tornado um defensor fervoroso de Pequim, mas sim que os latino-americanos estão reavaliando suas prioridades e percepções de influência.
Marta Lagos, diretora do Latinobarómetro, oferece uma perspectiva provocadora sobre essa mudança: “O vazio que a China preenche é o dos bolsos”. Para muitos na América Latina, a presença chinesa não está relacionada a debates sobre comunismo ou democracia, mas sim à acessibilidade de produtos como celulares, carros e eletrodomésticos. A China se apresenta como uma fonte de comércio, infraestrutura e investimentos, além de ser um comprador significativo de matérias-primas da região.
Enquanto isso, a imagem dos Estados Unidos na América Latina sofreu um declínio, caindo de 73% em 2024 para 63% neste ano. Além disso, 55% dos entrevistados acreditam que as políticas de Trump terão um impacto negativo no mundo. Essa queda não pode ser atribuída apenas à figura do presidente americano, mas o contraste com a crescente aceitação da influência chinesa é notável.
Essa situação desafia a ideia comum de que a escolha política dos latino-americanos está necessariamente alinhada com a influência de uma potência ou outra. A região parece estar separando suas preferências políticas de suas percepções sobre as potências globais. Embora a direita esteja ganhando espaço nas eleições, a preferência por uma influência econômica mais benéfica parece estar se inclinando para a China, pelo menos por enquanto. Essa escolha reflete uma nova realidade na geopolítica latino-americana, onde as prioridades econômicas podem superar as considerações ideológicas tradicionais.




