Post: Descompasso entre eleitor e candidatos marca as eleições 2026 no Paraná

Análise revela descompasso entre perfil do eleitor paranaense e candidatos nas eleições 2026, destacando desigualdades de gênero e escolaridade.
Descompasso entre eleitor e candidatos marca as eleições 2026 no Paraná

O eleitor paranaense se prepara para ir às urnas neste domingo, mas a disparidade entre seu perfil e o dos candidatos é notável. As características do eleitorado no Paraná, predominantemente feminino e com uma diversidade de níveis de escolaridade e perfis socioeconômicos, contrastam com as candidaturas, que se concentram em indivíduos com ensino superior completo. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam que, enquanto as mulheres representam 53% do eleitorado apto a votar, elas correspondem a apenas 34% das 1.090 candidaturas registradas. Isso significa que os homens dominam a disputa, totalizando 66% dos candidatos.

No que diz respeito à educação, a discrepância é ainda mais acentuada. Aproximadamente 63,6% dos candidatos possuem ensino superior completo, enquanto pouco mais de 51% dos eleitores têm escolaridade que varia entre o ensino médio completo e o superior completo. Somente 8,36% dos candidatos declararam ter ensino fundamental completo ou incompleto, em contraste com 17% dos eleitores que possuem ensino médio completo.

A composição racial dos candidatos também apresenta diferenças significativas. Cerca de 73,71% dos candidatos são brancos, enquanto essa etnia representa 60,54% do eleitorado paranaense. Em termos de estado civil, a situação se inverte: 53,43% dos candidatos são casados, enquanto 51% dos eleitores são solteiros.

Fernando Knoerr, especialista e professor do Programa de Mestrado e Doutorado da UniCuritiba, explica que essa diferença no perfil é resultado de fatores históricos e do modelo político e legal brasileiro. As características dos candidatos refletem mecanismos que favorecem determinados perfis na disputa eleitoral. A legislação estabelece faixas etárias mínimas para a candidatura a diferentes cargos, como 21 anos para deputado federal e estadual e 30 anos para governador e vice-governador. Essas exigências contribuem para uma maior presença de candidatos em faixas etárias mais elevadas, distanciando o perfil das candidaturas da composição etária do eleitorado.

A desigualdade de gênero também é um ponto crítico. Apesar de as mulheres serem a maioria entre os eleitores, sua representação entre os candidatos é inferior à dos homens. Knoerr atribui essa disparidade a raízes históricas, lembrando que a primeira eleição de mulheres a cargos políticos ocorreu há 99 anos, em um período em que o voto feminino ainda não era garantido por lei. Embora existam regras para aumentar a participação feminina, como a cota de 30% para candidaturas, a forma como esse mecanismo foi estruturado pode ter efeitos contrários.

Knoerr ressalta que a legislação sobre cotas pode incentivar ações que levam à condenação de mulheres por candidaturas fraudulentas. Além disso, a forma como situações semelhantes são interpretadas durante as campanhas também varia. A desistência de um candidato homem pode ser vista como um movimento normal, enquanto a mesma situação envolvendo uma mulher pode gerar questionamentos sobre a legitimidade de sua candidatura.

O especialista também observa que o perfil dos candidatos se distancia do eleitorado em características como cor, raça, estado civil e escolaridade, indicando que as candidaturas ainda estão concentradas em um perfil social mais tradicional. Essa realidade reflete um fenômeno que Knoerr chama de “hiperprojeção da representatividade”, onde o eleitor tende a buscar segurança em figuras que reproduzem padrões políticos consolidados.

As profissões dos candidatos também revelam essa disparidade. Dados do TSE mostram que 159 candidatos são empresários e 115 são advogados, as duas profissões mais comuns entre os candidatos. Knoerr acredita que a presença significativa de profissionais da advocacia e do setor empresarial pode contribuir para uma atuação mais técnica no Legislativo, especialmente em um cenário de crescente complexidade das questões discutidas.

Entretanto, essa maior qualificação formal não garante que grupos menos escolarizados ou com menor representação deixem de ser ouvidos. Knoerr defende que a democracia não depende apenas de uma composição parlamentar que reflita exatamente o perfil social dos eleitores, mas também da capacidade dos eleitos de transformar as demandas da sociedade em propostas e políticas públicas.

Para que o voto esteja alinhado com os interesses do eleitor, Knoerr recomenda que os cidadãos conheçam o perfil e as pautas de cada candidato antes de tomar uma decisão. Ele enfatiza a importância de acompanhar a atuação de cada parlamentar, permitindo uma análise crítica das propostas e ações realizadas, em vez de simplesmente repetir escolhas anteriores. O voto deve ser visto como uma manifestação de confiança, e a informação é fundamental nesse processo. Conhecer as propostas dos candidatos permite ao eleitor decidir se deseja manter ou mudar sua escolha, reafirmando que a democracia exige informação e comunicação.

Últimas Notícias