Em um marco histórico, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou, pela primeira vez, um quilombo urbano no estado do Rio de Janeiro. O Quilombo Ferreira Diniz, situado no bairro da Glória, no centro da capital fluminense, agora faz parte do patrimônio cultural brasileiro.
O reconhecimento foi formalizado durante uma reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, onde a inscrição no Livro de bens relacionados às comunidades quilombolas foi oficializada. O Quilombo Ferreira Diniz se junta a um total de 54 comunidades certificadas em todo o estado, conforme informações da Associação Estadual das Comunidades Quilombolas.
De acordo com o Iphan, o tombamento é justificado pela relevância histórica, cultural e social do quilombo, que existe desde 1950. A superintendente do Iphan no Rio, Patrícia Corrêa, destacou que essa medida visa proteger os direitos dos quilombolas. “O tombamento do Quilombo Ferreira Diniz não diz respeito apenas à proteção de um território, mas à proteção de uma trajetória de resistência de uma comunidade. É um reconhecimento dos modos de vida e das referências materiais e imateriais que constituem a história do povo brasileiro”, afirmou.
A história do Quilombo Ferreira Diniz remonta a Maria Isabel Ferreira, descendente de africanos escravizados, que se estabeleceu no local com seu marido, Antônio Dias Peçanha. Atualmente, cerca de 70 pessoas, descendentes das famílias Ferreira e Diniz, habitam o espaço. A presidente da Associação da Comunidade do Quilombo Urbano, Érida Ferreira, enfatiza a importância de preservar a cultura quilombola como uma forma de diversificar a narrativa da história do Brasil.
“Manter uma comunidade quilombola é garantir um futuro com mais diversidade cultural e participação da população negra. Preservar essa cultura é contar uma história viva do Brasil. O território é o que é porque essa comunidade está aqui. O quintal do quilombo sempre foi um lugar de acolhimento e de celebração”, disse Érida.
As atividades no Quilombo Ferreira Diniz incluem rodas de capoeira, apresentações musicais e artísticas. No entanto, o evento mais emblemático é a feijoada da Tia Cida, realizada toda sexta-feira, acompanhada por uma roda de samba. Tia Cida compartilha que a culinária tem um papel fundamental em sua vida: “Foi através da feijoada que criei meus filhos, netos e bisnetas. Esse espaço é um lugar de felicidade, onde as pessoas podem se sentir bem, conhecer nossa história e sentir a energia deste lugar”.
Além do tombamento do Quilombo Ferreira Diniz, a reunião do Iphan também aprovou o registro do Cortejo da Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito, e o tombamento da Capela do Cristo Operário, ambos localizados no estado de São Paulo. Outras medidas incluíram a revalidação dos registros do Fandango Caiçara, festa tradicional do Paraná e São Paulo, e da Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, celebrada no Ceará.



