Um tema inesperado tem conseguido unir a direita e a esquerda cristãs no Brasil: a oposição às apostas esportivas online, conhecidas como “bets”, e aos cassinos digitais, como o jogo do tigrinho. Na última terça-feira (22), foi lançada a “Carta Compromisso: Cristãos Contra Bets”, elaborada por diversas organizações religiosas, que reflete essa nova bandeira comum.
O documento foi assinado por entidades como Justiça Pública, Aliança Evangélica, Associação Brasileira Cristãos na Ciência e Médicos de Cristo. A proposta é clara: superar a divisão doutrinária em nome da proteção da família e do próximo. O preâmbulo da carta destaca que, antes de qualquer divisão, o amor deve ser a essência da fé cristã.
Os argumentos apresentados na carta são contundentes. Segundo os signatários, a expansão das plataformas de apostas gera custos humanos e financeiros significativos. Eles estimam que as perdas associadas a suicídios, problemas de saúde mental e custos relacionados a crimes e encarceramento decorrentes de apostas chegam a R$ 38,8 bilhões. Para esses líderes religiosos, essa conta é um claro sinal de que a indústria de apostas está causando danos irreparáveis à sociedade.
Histórias de pessoas que caíram na armadilha das apostas são comuns. Armando, um fiel de uma igreja na zona norte do Rio de Janeiro, compartilha sua experiência. Ele começou a apostar após ouvir um colega falar sobre ganhos em uma bet. O que começou como uma pequena aposta de R$ 200 rapidamente se transformou em um vício. Armando relata que, após várias tentativas de recuperar o que havia perdido, seu casamento quase chegou ao fim, e ele se viu em uma “espiral do demônio”.
Pastores de diferentes denominações têm se manifestado sobre o problema. Pedro Barreto, da Comunidade Batista do Rio, menciona um membro da igreja que, após a morte de seu psiquiatra, se deixou levar pela compulsão por apostas. A situação se agravou a ponto de sua família ter que intervir para impedir que ele continuasse apostando.
Embora a Bíblia não mencione diretamente a jogatina, passagens como 1 Timóteo 6:9-10 e 1 Coríntios 6:12 alertam sobre os perigos do amor ao dinheiro e da falta de controle. No entanto, a promessa de enriquecimento fácil continua a atrair muitos, especialmente em um contexto onde a propaganda das apostas se tornou onipresente, inclusive nas redes sociais e no futebol.
Para enfrentar essa questão, a carta proposta pelos grupos cristãos sugere que candidatos à Presidência do Brasil assumam um compromisso formal para regular as apostas, incluindo o bloqueio de sites clandestinos e a proibição do uso de benefícios sociais, como o Bolsa Família, em jogos de azar. Desde o final do ano passado, o Ministério da Fazenda já vetou essas apostas para beneficiários do Bolsa Família, em cumprimento a uma decisão do STF.
Danilo Erly, presidente do Justiça Pública, enfatiza que a ação é apartidária e busca um compromisso que transcenda as divisões políticas. Ele já se reuniu com as principais campanhas eleitorais, ressaltando a importância de que esse tema seja central nas discussões da próxima eleição.
Uma pesquisa realizada pelo PoderData revelou que 41% dos evangélicos já apostaram em alguma plataforma de apostas, enquanto 34% dos católicos também admitiram ter participado. Essa adesão significativa a jogos online é uma preocupação compartilhada por pastores de diferentes vertentes, que veem as apostas como um “câncer na sociedade”.
O apóstolo Estevam Hernandes, da igreja Renascer em Cristo, e o pastor Henrique Vieira, do PSOL-RJ, expressam sua repulsa à indústria de apostas, destacando os danos que ela causa às famílias e à sociedade em geral. Vieira critica a forma como a propaganda das bets se infiltrou na vida cotidiana, prejudicando a relação das pessoas com o esporte e levando muitos ao endividamento.
O pastor Lucas Graffunder, de Novo Hamburgo (RS), também tem acompanhado de perto o problema. Sua congregação luterana começou a receber Jogadores Anônimos, um grupo de apoio, e a adesão cresceu rapidamente. Ele alerta que a vergonha pode dificultar o pedido de ajuda, e que é fundamental tratar o vício de forma sensível, sem reduzi-lo a uma simples falta de fé.
A situação é alarmante, e a união entre diferentes correntes do cristianismo pode ser um passo importante para enfrentar os desafios impostos pela indústria das apostas online. A esperança é que, por meio de ações conjuntas e um compromisso real, seja possível mitigar os danos causados por essa prática que tem afetado tantas vidas.



