A Assembleia Geral da ONU, um dos principais palcos da diplomacia internacional, tem uma tradição que se mantém firme desde 1949: o Brasil é sempre o primeiro país a discursar. Essa prática, que começou em um contexto de Guerra Fria, visa evitar que potências como os Estados Unidos ou a União Soviética dominem o debate inicial. Em 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmará esse papel ao discursar na abertura do evento, um momento que simboliza a visibilidade e a influência do Brasil no cenário global.
A escolha do Brasil para abrir os trabalhos não é apenas uma questão de protocolo, mas uma estratégia diplomática. Segundo o livro “O Brasil nas Nações Unidas, 1946-2011”, publicado pela Fundação Alexandre de Gusmão, a prática foi estabelecida para garantir um equilíbrio nas vozes que se fazem ouvir no início da Assembleia. Desde então, o secretário-geral da ONU consulta a missão brasileira a cada ano, e a resposta positiva do Brasil mantém viva essa tradição que, segundo a publicação, “honra e distingue o Brasil”.
Os discursos de abertura são uma oportunidade para o Brasil apresentar uma visão mais ampla sobre a conjuntura internacional. Ao contrário de muitas delegações que se concentram em questões específicas, o Brasil utiliza o espaço para abordar temas estruturais, como o combate à fome e a reforma das instituições multilaterais. Essa abordagem mais abrangente reflete a percepção de que o discurso de abertura tem um peso estratégico significativo.
Lucas Leite, professor da Faap, destaca que essa tradição também tem raízes históricas. O Brasil desempenhou um papel fundamental na elaboração da Carta da ONU e na criação da própria organização, com diplomatas como Oswaldo Aranha sendo figuras centrais na primeira Assembleia Geral. A diplomacia brasileira sempre foi reconhecida por sua capacidade de mediar conflitos e criar consensos, o que ajuda a explicar a continuidade dessa tradição.
Desde 1955, o Brasil tem aberto o Debate Geral, seguido pelos Estados Unidos. Essa sequência trouxe estabilidade ao protocolo, e a ordem dos discursos subsequentes é definida por critérios como o nível da autoridade presente e o equilíbrio geográfico. Embora tenha havido algumas exceções ao longo das décadas, a tradição se manteve firme, conferindo ao Brasil uma visibilidade única em um espaço onde a atenção é máxima.
Os especialistas afirmam que essa visibilidade permite ao Brasil projetar sua política externa e expor suas prioridades nacionais. A abertura dos discursos na ONU é mais do que uma formalidade; é uma vitrine para o país, que pode dar recados importantes em um espaço privilegiado. Paulo Velasco, outro especialista, observa que, embora a atenção inicial possa estar voltada para o discurso americano que se segue, o Brasil acaba se beneficiando da repercussão que seu discurso gera.
A diplomacia brasileira, ao longo das décadas, oscilou entre diferentes posturas, desde um alinhamento mais próximo aos Estados Unidos até uma abordagem mais globalista, defendendo a autonomia e o desenvolvimento dos países do Sul Global. Essa “pendulação” é visível nos discursos brasileiros, que, independentemente do governo, sempre abordaram temas como desenvolvimento, meio ambiente e democracia. A exceção foi o governo Bolsonaro, que adotou uma postura mais alinhada aos interesses americanos, em detrimento do multilateralismo.
Dessa forma, a tradição de abrir a Assembleia Geral da ONU não é apenas uma questão de protocolo, mas um reflexo da importância do Brasil no cenário internacional. O país, ao ser o primeiro a discursar, garante que sua voz seja ouvida em um espaço onde as decisões globais são debatidas, reafirmando seu papel como um ator relevante no multilateralismo e na diplomacia mundial.




