A desinformação tem sido uma ferramenta poderosa na guerra da Ucrânia, e uma nova campanha revela como a violência sexual está sendo explorada para atrair seguidores a canais pró-Rússia. Através do aplicativo Telegram, canais associados ao Kremlin têm utilizado imagens de mulheres, incluindo aquelas que servem ou serviram nas Forças Armadas da Ucrânia, como iscas para disseminar conteúdo enganoso e atrair cliques.
Recentemente, Keti Leshkasheli, uma médica que atuou nas forças ucranianas, se deparou com uma publicação alarmante que afirmava que ela havia sido capturada e estuprada. “Fiquei sabendo que havia aparecido um vídeo dizendo que algumas garotas e eu tínhamos sido capturadas. Havia um link para um canal no Telegram que mostrava como estávamos sendo ‘punidas'”, relatou Leshkasheli à BBC. Essa publicação era parte de uma rede maior de anúncios enganosos que prometiam mostrar imagens de supostas prisioneiras de guerra ucranianas sendo abusadas.
Desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022, milhares de postagens têm circulado no Telegram, prometendo conteúdo chocante e perturbador. O aplicativo, que é amplamente utilizado na Rússia, permite a criação de canais onde usuários compartilham e discutem conteúdos, tornando-se um espaço fértil para a desinformação. A BBC identificou mais de 6.500 anúncios com alegações de violência sexual, publicados por cerca de 1.700 canais, que acumulam mais de 65 milhões de visualizações.
Essas publicações seguem um padrão alarmante: utilizam fotos reais de mulheres, afirmam falsamente que elas foram sequestradas e estupradas, e incluem links que prometem mostrar provas em vídeo. No entanto, ao clicar, os usuários são redirecionados para canais que promovem propaganda pró-Rússia, repletos de conteúdo que glorifica a guerra e desumaniza os ucranianos.
Valentyna Shapovalova, pesquisadora que estuda desinformação de gênero, aponta que essa campanha não apenas entretém, mas também serve aos objetivos de guerra da Rússia, normalizando a violência sexual contra o “inimigo”. A BBC analisou canais que se beneficiam dessa estratégia, revelando que alguns deles possuem mais de 1 milhão de inscritos. O canal Pryamoy Efir Novosti, por exemplo, tem mais de 4 milhões de seguidores e se apresenta como um veículo de notícias, embora tenha um histórico de conteúdo chocante.
A exploração da violência sexual como ferramenta de desinformação não é apenas uma questão de ética, mas também um reflexo da brutalidade da guerra. As alegações de que mulheres ucranianas torturaram soldados russos ou cometeram atrocidades são frequentemente acompanhadas de insultos étnicos e de gênero, reforçando estereótipos prejudiciais.
Com a desinformação se espalhando rapidamente, a necessidade de uma resposta eficaz se torna cada vez mais urgente. A luta contra a desinformação exige não apenas vigilância, mas também uma compreensão mais profunda de como essas narrativas são construídas e disseminadas.



