Em setembro de 1936, a PRE-8, conhecida como Rádio Nacional do Rio de Janeiro, fazia sua estreia nas ondas do rádio, um marco que transformaria a comunicação no Brasil. Para entender essa trajetória, é essencial voltar ao Rio de Janeiro dos anos 1930, quando o rádio começava a se consolidar como um meio de comunicação fundamental na vida dos brasileiros.
A história da Rádio Nacional inicia-se sob a luz da lua, com a canção “Luar do Sertão”, de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco, que se tornaria o prefixo musical da emissora. Curiosamente, “A Noite” era também o nome de um jornal que circulava na cidade, reconhecido pelo imponente prédio de 22 andares que abrigava suas operações, considerado o primeiro arranha-céu da América Latina.
No início da década de 1930, o grupo A Noite enfrentava desafios financeiros e tensões com o governo de Getúlio Vargas. Em 1931, a companhia foi vendida à Companhia Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, que adquiriu, entre outros bens, a concessão de rádio. Nesse contexto, o rádio começava a atrair um público crescente, como explica a historiadora Lia Calabre.
“O Brasil dos anos 30 era um país com uma taxa de analfabetismo em torno de 70%. Embora os jornais impressos circulassem pelo país, a informação era limitada pela capacidade de leitura. O rádio, por outro lado, podia ser ouvido por qualquer pessoa, independentemente de classe social ou localização.”
Em 1933, o projeto de investimento no rádio ganhou vida com a fundação da Sociedade Civil Brasileira Rádio Nacional. Três anos depois, a emissora adquiriu um transmissor de 20 quilowatts, anteriormente pertencente à extinta Rádio Philips, visando competir no mercado radiofônico. Para isso, a PRE-8 reuniu grandes nomes da música e do rádio, como Orlando Silva, Aracy de Almeida, Celso Guimarães, Ismênia dos Santos, Oduvaldo Cozzi e Radamés Gnattali.
Entretanto, o maior desafio ainda era conquistar os ouvintes. Para atrair a atenção do público, uma chuva de panfletos foi lançada sobre o Rio de Janeiro a partir de um avião, anunciando a chegada da nova emissora.
Nas ondas da Rádio Nacional, música, esportes e publicidade começaram a alcançar cada vez mais ouvintes. Contudo, o início foi repleto de dificuldades. O ex-diretor da emissora, Osmar Frazão, recorda os desafios enfrentados nos primeiros anos.
“Os primeiros cantores, como Orlando Silva e Nuno Roland, foram contratados, mas três meses depois deixaram a emissora. Os transmissores não alcançavam a Zona Sul, o que dificultava a venda de comerciais, já que o som não chegava a áreas importantes.”
A situação começou a mudar em 1940, quando Getúlio Vargas incorporou a Rádio Nacional e as demais empresas do grupo A Noite ao patrimônio da União. A professora Izani Mustafa explica o contexto dessa mudança.
“Havia uma dívida da empresa com o governo federal. Vargas, percebendo o potencial do rádio, decidiu que poderia ser proprietário de uma emissora.”
Com a incorporação, o empresário Gilberto de Andrade assumiu a administração da Rádio Nacional e implementou mudanças que se mostraram cruciais para transformar a emissora em um fenômeno de audiência. O elenco foi ampliado, mecanismos de medição de audiência foram criados e a rádio começou a investir em transmissões de ondas curtas, permitindo que sua programação chegasse a outros continentes.
Em 1942, com cinco antenas transmissoras, o sinal da Rádio Nacional alcançou praticamente todo o Brasil e também países da América, Europa, África e Ásia, consolidando sua posição entre as maiores emissoras do mundo. No mesmo ano, os estúdios foram reformados e um auditório com quase 500 lugares foi inaugurado, onde o público podia acompanhar concursos, apresentações musicais e shows de calouros.
Desde 1938, com o radialista Almirante, a Rádio Nacional já produzia programas de grande sucesso e desenvolvia novas formas de interação com os ouvintes. A relação se fortaleceu com a criação dos auditórios, onde programas de César de Alencar, Paulo Gracindo e o Show dos Calouros atraíam multidões ao prédio de A Noite. A variedade das atrações impressionava, como destaca o historiador Luiz Antonio Simas.
“Você tinha desde shows musicais até concursos. O sucesso do Show dos Calouros foi tão grande que, em um certo momento, a Rádio Nacional não conseguia mais abrir o auditório para o público.”
Uma característica marcante da programação da Rádio Nacional era que nem todos os programas precisavam ser lucrativos para permanecer no ar. Paulo Tapajós explica essa filosofia.
“A Rádio Nacional nunca se preocupou em saber se um programa dava lucro ou prejuízo. Se fosse assim, nunca teria uma orquestra sinfônica. Não importava se um artista era caro ou barato, desde que coubesse na receita da rádio.”
Essa abordagem foi fundamental para o sucesso da Rádio Nacional, que apostou não apenas na música, mas também na comédia, radiodramaturgia e esportes. E essa história está apenas começando, mas isso é assunto para o próximo episódio.


