Raphaël Glucksmann, um nome que começa a ressoar nas discussões políticas da França, lançou sua candidatura à presidência do país de uma maneira inusitada: escalando uma turbina eólica de 80 metros. Vestido com capacete e arnês, ele declarou não ter medo e mal esperar para chegar ao topo, prometendo uma “revolução ambiental de cem dias” caso seja eleito em 2027. Essa proposta surge em um contexto marcado por um dos verões mais quentes já registrados na França e incêndios florestais devastadores, colocando Glucksmann na vanguarda dos debates sobre mudanças climáticas.
Entretanto, sua trajetória não é isenta de desafios. A esquerda francesa não consegue chegar ao segundo turno das eleições presidenciais desde 2012, e Glucksmann se vê pressionado pela ultradireita de Marine Le Pen, que parece garantida em uma das vagas, além da esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon, que tem ganhado força nas pesquisas. Com 46 anos, Glucksmann é um escritor e ativista que se tornou eurodeputado e fundou seu próprio partido, Place Publique, em 2018. Ele ganhou notoriedade ao liderar uma lista conjunta com os Socialistas nas eleições europeias, onde ficou em terceiro lugar. Apesar de sua imagem por vezes parecer desajeitada, seus apoiadores acreditam que suas convicções são autênticas. “Eu não venho do molde político usual”, afirmou em entrevista, destacando sua experiência ao lado de pessoas que escaparam do genocídio em Ruanda e opositores do imperialismo russo na Geórgia e na Ucrânia.
A formação elitista e intelectual de Glucksmann, no entanto, pode ser uma faca de dois gumes. Críticos o acusam de ser excessivamente pró-Israel e nuclear, além de não ser suficientemente radical em suas propostas econômicas. Seu estilo de vida, que alguns consideram como “socialista champanhe”, também pode prejudicá-lo. Nascido em uma família de intelectuais e ativistas, Glucksmann cresceu em um ambiente onde discussões políticas eram comuns. Seu pai, André Glucksmann, foi um filósofo conhecido que se distanciou do comunismo, e sua mãe, Françoise, também era uma ativista. Essas influências moldaram sua visão política e seu compromisso com causas sociais. As críticas contundentes de Glucksmann à Rússia são fruto de experiências marcantes, como sua vivência na Revolução Laranja de 2004 em Kiev e sua atuação na Geórgia após a invasão russa de 2008. Seus apoiadores o descrevem como alguém tenaz e determinado, capaz de se dedicar a causas que não estão na moda. As primeiras pesquisas indicam que Glucksmann ainda tem um longo caminho pela frente. Recentemente, ele foi colocado em quarto lugar com 11% das intenções de voto, atrás de Le Pen, Mélenchon e do ex-primeiro-ministro Édouard Philippe. Contudo, em um hipotético segundo turno contra Le Pen, seu desempenho foi consideravelmente melhor do que o de Mélenchon. O primeiro teste de Glucksmann será uma prévia em outubro, onde disputará a indicação da centro-esquerda contra outros candidatos socialistas. Sua maior tarefa será convencer os eleitores de esquerda de que ele é a melhor opção para alcançar o segundo turno. Embora ainda não seja amplamente conhecido, ele tem se destacado em debates, especialmente ao criticar a tentativa de Le Pen de restringir a imigração como uma solução para a dívida da França. Glucksmann promete criar uma sociedade de “trabalhadores, não de rentistas e herdeiros”, e sua luta contra a “religião do livre comércio” ressoa com muitos que buscam mudanças significativas. A questão agora é se ele conseguirá unir a esquerda e conquistar a confiança dos eleitores em um cenário político desafiador.



