A situação em El Salvador, marcada pela violência das facções, passou a ser ofuscada por um novo tipo de medo: o temor do Estado. O país, que já enfrentou uma das maiores taxas de homicídios do mundo, agora vive sob um regime de exceção que amplia os poderes do governo e restringe os direitos dos cidadãos. Essa transformação levanta questões cruciais sobre a proteção e a segurança da população em um ambiente onde a violência estatal se torna uma realidade palpável.
Em 2015, El Salvador registrou alarmantes 103 homicídios para cada 100 mil habitantes, uma das taxas mais elevadas globalmente. No entanto, segundo dados do governo de Nayib Bukele, em 2025, esse número caiu para 82 assassinatos. Essa diminuição, embora celebrada por alguns, não inclui as mortes causadas pela polícia, as violências nas prisões e os corpos encontrados em valas clandestinas, o que levanta um debate sobre a verdadeira eficácia das políticas de segurança.
Organizações de direitos humanos denunciam que mais de 500 mortes ocorreram em prisões sob a responsabilidade do Estado, muitas delas de indivíduos que ainda não haviam sido julgados. Desaparecimentos e prisões arbitrárias tornaram-se comuns, sendo tratados como efeitos colaterais da luta do governo contra o crime organizado. Essa situação gera um paradoxo: enquanto muitos apoiam as ações do governo em busca de segurança, o preço pago em termos de direitos humanos e liberdades civis é alarmante.
A professora Adélia Rosales, em uma reportagem da BBC News Brasil, descreve a transformação de sua comunidade. Anteriormente, ela enfrentava o medo diário de andar pelas ruas, onde a presença de corpos de pessoas mortas era comum. Hoje, as crianças brincam nas ruas até tarde, e a violência das facções parece ter diminuído. Rosales expressa sua surpresa com a rapidez dessa mudança, mas a pergunta que fica é: a que custo?
Desde março de 2022, após uma onda de assassinatos, o governo decretou um regime de exceção que suspendeu garantias constitucionais e ampliou os poderes policiais. O acesso à defesa para os presos foi severamente restringido, e a emergência, que deveria durar apenas 30 dias, já foi prorrogada 54 vezes até agosto de 2026. Essa situação fez de El Salvador o país com a maior taxa de encarceramento do mundo, com 1.659 presos a cada 100 mil habitantes.
O governo afirma que cerca de 9.000 detidos foram libertados após investigações que não encontraram vínculos com organizações criminosas. Contudo, é difícil confiar plenamente nesses números, considerando o impacto devastador que a prisão teve na vida dessas pessoas, que foram separadas de suas famílias e empregos, e muitas vezes sofreram a violência do sistema penitenciário.
Um caso emblemático é o de José Alfredo Vega González, um pescador de camarões que foi preso em 2022. Sua mãe, Marta Elena González, passou três anos sem ver o filho, até que, em abril de 2025, descobriu por meio de uma publicação no Facebook que ele havia morrido. Esse relato é apenas um entre muitos que ilustram a tragédia humana por trás das estatísticas.
O medo que antes dominava a vida sob as facções foi substituído por um temor ainda mais profundo: o medo de ser alvo de um Estado que, em sua busca por segurança, ultrapassa limites éticos e legais. A situação em El Salvador é um alerta sobre os perigos de um governo que, em nome da proteção, pode se tornar a própria fonte de opressão e violência.


