O primeiro turno das eleições estaduais em colégios eleitorais significativos do Brasil já é visto como um segundo turno antecipado. Essa percepção surge da presença de apenas dois candidatos competitivos na corrida pelo governo, refletindo um acirramento político que contrasta com o baixo número de concorrentes. Cientistas políticos apontam que a polarização observada nos estados é resultado de amplas alianças partidárias, que vão da direita à esquerda, e da escassez de candidaturas alternativas com viabilidade nas urnas.
Priscila Lapa, cientista política, destaca que as candidaturas estaduais estão ligadas diretamente ao presidente Lula (PT) e ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mesmo quando novos nomes emergem de grupos tradicionais de outros partidos. “Temos novos atores que ganharam protagonismo, especialmente pela mudança na ordem partidária no país. A reorganização do centro, com partidos se posicionando mais à direita, é um reflexo do fenômeno do bolsonarismo”, analisa.
Apesar da aparente renovação, Lapa argumenta que não há uma verdadeira mudança política, mas sim uma “reprodução contemporânea” das disputas tradicionais. O eleitor, segundo ela, busca referências no lulismo e no bolsonarismo para decidir seu voto, independentemente da sigla partidária. Além disso, a avaliação do governo atual desempenha um papel crucial nas eleições estaduais, como é comum nas disputas eleitorais.
O caso mais emblemático de polarização é o de São Paulo, onde o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o petista Fernando Haddad disputam o cargo no Palácio dos Bandeirantes, cercados por candidaturas menos relevantes. A pesquisa Datafolha mais recente indica que Tarcísio lidera com 45% das intenções de voto, enquanto Haddad aparece com 27%. Ambos têm o apoio dos principais concorrentes na eleição presidencial, Flávio Bolsonaro e Lula, que buscam garantir seus palanques para a disputa eleitoral.
Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, ressalta que, assim como na corrida presidencial, o centro enfrenta dificuldades em apresentar alternativas viáveis nos estados, o que concentra a disputa em duas candidaturas. Essa dinâmica aumenta as chances de uma decisão no primeiro turno.
A eleição para o governo do Rio de Janeiro também pode ser afetada por uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Justiça fluminense determinou a perda dos direitos políticos do ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos) por oito anos, o que pode impactar sua candidatura. Atualmente, Garotinho aparece como a “terceira via” com 9% das intenções de voto, enquanto Eduardo Paes (PSD) lidera com 41% e Douglas Ruas (PL) soma 19%.
Nos estados do Nordeste, as pesquisas indicam que a definição das eleições para o governo pode ocorrer no primeiro turno. No Ceará, Ciro Gomes (PSDB), apoiado pelo PL, lidera com 52% das intenções, enquanto o governador Elmano de Freitas (PT) tem 33%. Na Bahia, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) enfrenta ACM Neto (União Brasil) em uma disputa acirrada, com ambos os candidatos tecnicamente empatados, segundo a pesquisa Quaest.
Luciana Santana, cientista política da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), observa que as candidaturas nos maiores estados do Nordeste são lideradas por figuras com experiência política e apoio de coalizões formadas precocemente. Isso dificulta a entrada de uma terceira via na disputa. “Quando temos essas lideranças disputando, não há espaço para a terceira via”, afirma.
Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra (PSD) lidera com 47% contra 40% de João Campos (PSB), apoiado por Lula. A estratégia de Lyra é conquistar votos da direita sem confrontar diretamente o PT. Priscila Lapa destaca que a governadora conseguiu construir uma base política sólida após enfrentar dificuldades iniciais.
Por fim, Alagoas se destaca como o estado com o menor número de candidatos ao governo, com apenas quatro nomes na disputa. O ex-governador Renan Filho (MDB) e o ex-prefeito de Maceió, JHC (PSDB), estão tecnicamente empatados nas intenções de voto, refletindo a polarização local entre as forças políticas.



