A Figueira das Lágrimas, considerada a árvore mais antiga de São Paulo, está localizada na Estrada das Lágrimas, um dos trajetos mais significativos do Brasil Império. Esta imponente figueira, que já assistiu a milhares de viajantes partindo da capital paulista rumo ao Porto de Santos, é um símbolo de um passado repleto de histórias e emoções. Avaliada por um botânico consultado pelo professor Jorge Pimentel Cintra, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, a árvore possui mais de 250 anos. Documentos históricos revelam que, em 1862, a figueira já era considerada adulta, um testemunho silencioso do tempo que passou.
Atualmente, a Figueira das Lágrimas alcança entre dez e 12 metros de altura, uma medida consideravelmente menor do que a que poderia atingir em um ambiente de mata fechada, onde a Figueira-Brava (Ficus organensis), sua espécie nativa, pode chegar a 30 metros. O professor Cintra, em sua pesquisa, reconstituiu o trajeto histórico que passava ao lado da árvore, utilizando mapas antigos, relatos de memorialistas e visitas a campo. O resultado desse levantamento foi o artigo “O Ipiranga na Jornada da Independência”, publicado pelo Museu Paulista.
A tradição oral já mencionava a Figueira das Lágrimas antes mesmo da pesquisa de Cintra, mas seu trabalho confirmou que Dom Pedro I passou por ali, uma vez que o caminho era o único disponível entre São Paulo e Santos na época. Para traçar o percurso, Cintra consultou memorialistas, como Paulo Cursino de Moura, autor de “São Paulo de Outrora”, e mapas do início do século XX, incluindo o mapa Sara, de 1930, elaborado pela Sociedade Anônima de Levantamento Topográfico. Este documento localiza a árvore próxima ao Sacomã, uma área que hoje abriga um terminal de ônibus e fica nas imediações do bairro do Ipiranga.
O nome Figueira das Lágrimas é uma referência às despedidas emocionantes de famílias que acompanhavam viajantes até aquele ponto antes de eles seguirem sozinhos para o Porto de Santos, onde iniciavam suas viagens internacionais. O trajeto entre São Paulo e Santos levava cerca de dois dias, tornando inviável para a maioria acompanhar o percurso completo. “Toda despedida era pungente. A pessoa ia embora e podia levar décadas para voltar, ou nunca mais voltar. A família chorava aos pés da figueira, por isso o nome Figueira das Lágrimas”, explica Cintra.
Além disso, a prefeitura de São Paulo associa o nome da árvore à passagem de soldados que seguiam para a Guerra do Paraguai, que ocorreu entre 1864 e 1870. Em 2016, a Figueira das Lágrimas foi oficialmente tombada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), garantindo sua proteção como patrimônio histórico da cidade. Para preservar o local, a Subprefeitura Ipiranga criou, em 2020, a praça Figueira das Lágrimas, onde a árvore está situada. O espaço recebeu bancos, refletores, pintura e intervenções de grafite, além de placas de bronze com poemas dedicados à árvore, que, infelizmente, foram furtadas pouco depois.
O reconhecimento oficial da Figueira das Lágrimas é também registrado em uma placa de bronze, que é mantida sob os cuidados da Administração Regional para garantir sua preservação e segurança. Essa árvore, que é muito mais do que um simples ser vivo, representa um elo entre o passado e o presente, uma testemunha silenciosa de um Brasil em transformação.



