A África deve enfrentar um impacto econômico significativo, estimado entre US$ 10 bilhões e US$ 20 bilhões, devido ao fenômeno climático conhecido como ‘super’ El Niño. A previsão foi feita por Anthony Nyong, diretor de mudanças climáticas e crescimento verde do Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB), em entrevista à Reuters. O fenômeno, que geralmente provoca secas severas e enchentes, pode resultar em migrações em massa nas regiões mais afetadas.
Meteorologistas alertam que, se as atuais tendências de aquecimento do oceano Pacífico persistirem, este El Niño pode se tornar um dos mais intensos já registrados. Além das ameaças à segurança alimentar e hídrica, a instabilidade econômica pode ser exacerbada, com possíveis danos à infraestrutura e dificuldades financeiras para países que já enfrentam desafios econômicos. Nyong destacou que o impacto poderá reduzir o PIB das nações mais afetadas em até 2%, representando uma perda significativa para o continente.
As projeções do AfDB, divulgadas em maio, indicavam um crescimento econômico de 4,2% para a África em 2026, aumentando para 4,4% em 2027, sob a condição de que as tensões geopolíticas, como as guerras entre Estados Unidos, Israel e Irã, fossem amenizadas. Contudo, essas estimativas foram feitas antes das previsões de um ‘super’ El Niño.
O impacto econômico previsto é a primeira estimativa divulgada por um grande banco multilateral especificamente relacionada ao fenômeno. Embora Nyong não tenha detalhado os valores por país, ele alertou que o impacto será abrangente e não isolado. As condições de seca que afetam o Sahel podem persistir, e a recuperação de grandes tempestades, como a que ocorreu em Moçambique após o ciclone Idai em 2019, pode levar anos.
Muitos governos africanos enfrentam o que Nyong descreveu como uma “armadilha do financiamento climático”, onde a falta de recursos para responder a crises leva à necessidade de desvio de verbas destinadas a setores essenciais, como saúde e educação, para cobrir os custos de desastres.
O El Niño de 2023 e 2024 já causou secas severas na África Austral e chuvas intensas na África Oriental, resultando em perdas significativas nas safras e um aumento recorde nos preços dos alimentos. O AfDB estima que os agricultores africanos já enfrentam perdas de renda de cerca de US$ 330 milhões neste ano. Além disso, a indústria pesqueira também pode ser severamente impactada devido ao aumento da temperatura do mar e às tempestades.
Nyong enfatizou que, quando esses choques ocorrem, os países frequentemente retrocedem em seu progresso econômico. A resposta do AfDB ao El Niño será ampliada em um seminário interno programado para setembro, onde os dirigentes avaliarão os impactos potenciais sobre investimentos planejados e já existentes. O banco está preparado para reestruturar projetos para ajudar os países a administrar os efeitos do fenômeno e buscará apoio adicional de mecanismos multilaterais, como o Fundo Verde para o Clima.
Um relatório da ONU divulgado em outubro indicou que, até 2035, os países em desenvolvimento precisarão de aproximadamente US$ 365 bilhões por ano para enfrentar as mudanças climáticas. No entanto, o financiamento público internacional para adaptação climática foi de apenas US$ 26 bilhões em 2023. Nyong destacou que a África poderá necessitar de até US$ 100 bilhões apenas neste ano, considerando a intensidade esperada do El Niño.
A necessidade de financiamento para adaptação climática já era de cerca de US$ 50 bilhões, mas o fenômeno pode acrescentar mais US$ 30 bilhões a US$ 50 bilhões a esse valor. As pressões humanitárias também agravarão a situação, com países como Sudão, Sudão do Sul, República Democrática do Congo, Somália, Mali, Burundi e Nigéria sendo identificados como os mais vulneráveis.
Nyong alertou que a chegada do El Niño pode provocar migrações em massa, com o preço do milho, um alimento básico em muitos dos países afetados, podendo dobrar. A escassez de recursos e a competição por áreas de pastagem e água podem intensificar a fragilidade em regiões já vulneráveis. As perdas agrícolas são estimadas em cerca de US$ 327 milhões, e a produtividade da pesca pode cair entre 1% e 4%. Diante desse cenário, Nyong enfatizou a necessidade urgente de investimentos em resiliência antes que os desastres ocorram, um tema que será central nas próximas negociações climáticas globais, programadas para novembro na Turquia. “É mais barato construir uma cerca ao redor de um precipício do que pagar por ambulâncias esperando no fundo para socorrer quem cair”, concluiu.




