A Arábia Saudita está em busca de um acordo com os Estados Unidos que permita o desenvolvimento de um programa de energia nuclear, uma estratégia que visa diversificar sua economia e reduzir a dependência do petróleo. O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que lidera o país, não descarta a possibilidade de construir armas nucleares no futuro, especialmente se o Irã, seu adversário histórico, seguir esse caminho. No entanto, as ambições sauditas em relação à energia nuclear vão além do armamento e têm raízes em preocupações econômicas e ambientais.
Em 2022, o petróleo bruto representou cerca de 40% do produto interno bruto da Arábia Saudita. Os líderes do país acreditam que a sobrevivência econômica a longo prazo depende da redução dessa dependência. Apesar de possuir vastos recursos naturais, a Arábia Saudita enfrentou déficits orçamentários em todos os últimos dez anos, exceto em um. As ambições do reino incluem projetos de grande escala, como a construção de cidades futurísticas e data centers de inteligência artificial, que demandam uma quantidade significativa de energia.
A instabilidade na região, exemplificada pela guerra entre os EUA e Israel contra o Irã, evidenciou os riscos de uma economia que depende fortemente do petróleo. Bloqueios no estreito de Hormuz, por exemplo, impactaram drasticamente as exportações sauditas, embora o aumento nos preços do petróleo tenha ajudado a mitigar os efeitos econômicos negativos.
Além disso, a Arábia Saudita aspira a se tornar um grande exportador de urânio, embora a viabilidade de seus depósitos ainda seja incerta. Se o país for autorizado a enriquecer urânio, seja através da extração interna ou da importação, isso poderia atender às suas crescentes necessidades energéticas e permitir que mais reservas de combustíveis fósseis sejam vendidas a outros países.
Os planos do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman para transformar a Arábia Saudita, conhecidos como Visão 2030, incluem reformas financeiras e culturais significativas, além de projetos de infraestrutura ambiciosos. Os líderes sauditas também estabeleceram metas climáticas, prometendo produzir metade da eletricidade do país a partir de fontes renováveis até 2030. No entanto, atualmente, menos de 1% da eletricidade é gerada por energia solar e eólica, com a maioria proveniente de gás e petróleo.
Um programa de energia nuclear poderia ser visto como um passo em direção a essa visão ecológica e modernizadora, além de fortalecer a posição regional e global da Arábia Saudita. Mesmo sem a intenção de desenvolver armas nucleares, um programa de energia nuclear poderia servir como um fator de dissuasão contra nações armadas.
O acordo com os EUA também permitiria que a Arábia Saudita aprofundasse suas relações com Washington. Durante anos, o reino negociou com líderes americanos sobre os termos de um possível programa nuclear, ameaçando buscar tecnologia com outros países, como China e Rússia, caso não obtivesse um acordo satisfatório. Segundo Neil Quilliam, especialista em política energética do Oriente Médio, a liderança jovem da Arábia Saudita confia que os EUA continuarão a ser o ator geopolítico dominante nas próximas décadas, o que torna o acordo ainda mais atraente para o reino.



