As comercializadoras de energia que atuam no mercado livre enfrentam uma crise sem precedentes, com um rombo financeiro que já ultrapassa R$ 6 bilhões. Esse cenário alarmante afeta pelo menos 11 empresas do setor elétrico, que lidam com dívidas e processos de recuperação judicial. O problema se intensificou nos últimos meses, quando a volatilidade dos preços de energia, mudanças regulatórias e exigências financeiras mais rigorosas começaram a impactar o setor de forma significativa.
O mercado livre de energia permite que grandes consumidores escolham de qual empresa comprar eletricidade, negociando preços e contratos diretamente, ao invés de depender da distribuidora local. Nos últimos anos, esse modelo cresceu rapidamente, respondendo por mais de 40% do consumo de eletricidade no Brasil. Contudo, desde 2024, as dificuldades começaram a se acumular, resultando em um efeito dominó que levou à falência de várias empresas.
Entre abril e maio deste ano, quatro companhias importantes tombaram. A 2W Ecobank, por exemplo, entrou em recuperação judicial com um passivo de R$ 2,39 bilhões. A Tradener, uma das pioneiras do setor, acumula uma dívida de R$ 1,7 bilhão, enquanto a Electra pediu proteção judicial com passivo próximo de R$ 1,3 bilhão. A Gold, que acionou recuperação extrajudicial, enfrenta mais de R$ 1 bilhão em dívidas.
Esse colapso é atribuído a uma “tempestade perfeita” resultante da intensa volatilidade dos preços de energia no mercado de curto prazo. Muitas comercializadoras venderam energia a preços que, posteriormente, se mostraram insuficientes para cobrir os custos assumidos em contratos com geradores. Entre 2023 e 2025, eventos climáticos reduziram a oferta de energia hidrelétrica, que é mais barata, e cortes na geração renovável também restringiram a oferta de energia. Além disso, as exigências de garantias financeiras aumentaram, forçando as comercializadoras a antecipar recursos para garantir a compra de energia.
Bernardo Felipe Abrão, presidente do Comitê de Transição e Governança da 2W Ecobank, alerta que essa situação pode levar a cortes abruptos no fornecimento de energia para clientes, criando um risco sistêmico que pode afetar serviços essenciais, como hospitais e sistemas de saneamento. A Electra, por sua vez, atribui a crise a uma alteração no cálculo do Preço da Liquidação das Diferenças (PLD), que agora varia a cada hora, aumentando a vulnerabilidade do mercado a oscilações de preços.
As mudanças regulatórias, segundo a Electra, criaram um modelo que favorece a alta dos preços, tornando o ambiente ainda mais instável. A situação exige atenção urgente das autoridades e do setor, para evitar um colapso ainda maior e garantir a continuidade do fornecimento de energia no país.




