Post: Ronaldo Lemos: a soberania das potências médias em tempos de tecnologia

Ronaldo Lemos discute a soberania das potências médias em um mundo dominado pela tecnologia e inteligência artificial.
Imagem gerada com IA

Desde 1961, a Fundação Körber organiza, na Alemanha, encontros com lideranças políticas, econômicas e acadêmicas para discutir o futuro da Europa. Recentemente, participei de um desses encontros em Berlim, cujo tema foi “Potências Médias e Geopolítica da Tecnologia”. Estavam presentes Ana Palacio, ex-chanceler da Espanha, que compartilhou sua admiração por João Gilberto e Caetano Veloso, além de representantes da chancelaria alemã, da Índia, Indonésia, Japão, África do Sul, Brasil, México e outras nações que se identificam como potências médias.

Diante da crescente influência da China e dos Estados Unidos, esse grupo diverso se uniu sob a bandeira comum de “potências médias”. O evento também marcou o lançamento do mais recente estudo da Fundação, o “Relatório das Potências Médias Emergentes 2026”, que analisa a política externa global. Uma das perguntas centrais do relatório foi: “Como você avalia a influência dos EUA globalmente?”.

Entre os especialistas consultados, menos de 25% dos representantes da África do Sul, Alemanha, Brasil e Indonésia consideram a influência dos EUA positiva. O caso da Alemanha é particularmente alarmante: em 2024, quase 80% tinham uma visão favorável, mas hoje esse número caiu para 10%. A Índia apresenta uma avaliação positiva de cerca de 50%.

Quando a pergunta é sobre a China, a percepção muda drasticamente. O grupo formado por África do Sul, Brasil e Indonésia acredita que a influência da China é positiva em mais de 74% dos casos, com o Brasil liderando com 83%. Em contraste, a Índia vê apenas 23% de aprovação, enquanto a Alemanha registra apenas 14%.

O principal foco do encontro foi a soberania digital, especialmente no contexto da inteligência artificial. Ana Palacio destacou que a IA redefine a noção de poder. Essa tecnologia promove uma convergência sem precedentes entre setores como indústria, defesa, administração pública, segurança e educação. A nova configuração do poder é moldada por fatores como energia, dados, chips, minerais críticos, cabos submarinos, plataformas digitais e modelos de IA.

Cada potência média deve realizar um “teste de realidade” para mapear suas dependências, identificar riscos, parceiros e desenvolver capacidades tecnológicas mínimas. Neste cenário, a regulação sozinha não é suficiente; é necessário combinar regulação com políticas industriais eficazes. O maior risco para uma potência média é se tornar apenas uma “usuária” ou uma “reguladora” de tecnologias desenvolvidas em outros países, posições que representam vulnerabilidades significativas.

Em minha apresentação, enfatizei três elementos cruciais para o Brasil: energia, terras raras e minerais críticos, além de modelos de IA de código aberto. O jogo da IA é, fundamentalmente, um jogo de energia. Como afirmou o fundador da Nvidia, Jensen Huang, a verdadeira essência do negócio da empresa não é a fabricação de chips, mas a transformação de elétrons em tokens, ou seja, energia em inteligência.

O Brasil possui oportunidades imediatas nesse campo. Nossa matriz energética é majoritariamente limpa, e temos um potencial imenso em biometano, que pode gerar empregos, promover independência e fornecer energia.

Quanto aos minerais críticos, estamos diante de uma oportunidade histórica para revisar nossa política mineral. Já discuti anteriormente a questão da monazita no país, e, assim como a Indonésia fez com o níquel, podemos começar a agregar valor localmente.

Por fim, os modelos de IA de código aberto, como o da francesa Mistral, podem ser retreinados e controlados localmente. Diante da ascensão da IA, as potências médias precisarão tomar decisões estratégicas. Permanecer inativo não é uma opção.

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