A questão sobre o valor do patrimônio pessoal é frequentemente respondida de forma rápida e superficial. Muitas pessoas somam o saldo de suas aplicações financeiras, estimam o valor de imóveis, lembram-se do carro e, por vezes, até incluem joias. Em menos de um minuto, chegam a um número. Contudo, esse cálculo geralmente ignora um dos bens mais valiosos que possuem: o capital humano, que é a capacidade de gerar renda ao longo da vida. Esse patrimônio invisível não aparece em extratos bancários nem em declarações de bens, mas, para muitos, ele pode valer mais do que todos os ativos financeiros e imóveis acumulados até hoje.
Para ilustrar essa ideia, pense em uma empresa listada na Bolsa de Valores. O que determina o valor de suas ações? Não são apenas os prédios, máquinas ou equipamentos. O valor de uma empresa está, principalmente, na capacidade de gerar caixa no futuro. Por isso, analistas estimam lucros e dividendos futuros e os trazem para o valor presente.
Imagine uma empresa que distribui R$ 20 mil por mês em dividendos, totalizando R$ 240 mil por ano. Se esse valor crescer apenas 1% acima da inflação nos próximos 30 anos, e considerando uma taxa de desconto real de 7% ao ano, essa empresa teria um valor presente próximo de R$ 3,3 milhões. Se você recebe R$ 20 mil por mês e espera manter sua atividade profissional pelos próximos 30 anos, sua capacidade de gerar renda pode ter um valor econômico semelhante, ou até maior, dependendo da evolução da sua carreira. Em outras palavras, o maior patrimônio que você construiu pode não estar na sua conta de investimentos, mas sim na sua capacidade de continuar gerando renda.
Essa percepção transforma completamente a forma como enxergamos a riqueza. Passamos horas comparando fundos de investimento e discutindo qual aplicação rende alguns décimos de ponto percentual a mais, enquanto muitas vezes negligenciamos o patrimônio que financia tudo isso: nossa capacidade de trabalho. Se você conseguir aumentar a taxa de crescimento da sua renda em apenas 1%, isso pode elevar seu patrimônio em mais de R$ 300 mil, ou seja, praticamente 10%. Será que o mesmo impacto ocorreria com suas aplicações?
Além disso, a proteção desse patrimônio é crucial. Uma doença grave, um acidente ou uma incapacidade permanente não afetam apenas as despesas da família, mas podem interromper e dilapidar não só suas aplicações atuais, mas também a maior parte do seu patrimônio: sua renda. É curioso como gastamos energia protegendo os frutos, mas muitas vezes esquecemos da raiz da árvore que sustenta e alimenta esses frutos.
Isso não significa que investir bem seja menos importante. Na verdade, é fundamental. O que se propõe aqui é reconhecer que, para a maioria das pessoas, o maior ativo não é a carteira de investimentos, mas a capacidade de trabalhar, empreender, inovar e transformar conhecimento em renda. Essa capacidade é o que compra imóveis, forma poupança, alimenta investimentos e sustenta o patrimônio financeiro ao longo da vida. Portanto, o foco dos investimentos deve ser maior nessa área.
No planejamento financeiro, a pergunta “Quanto vale o seu patrimônio?” não deve se restringir ao que você conquistou no passado, mas, principalmente, à sua capacidade de continuar construindo riqueza. Quando essa capacidade desaparece, muitas vezes, todo o restante começa a desaparecer também.



