Uma petição criada por um torcedor francês na quinta-feira (2) para pedir “desculpas” a Kylian Mbappé já conta com mais de 45 mil assinaturas. A iniciativa surgiu após o início avassalador do atacante francês no torneio, encerrando semanas de críticas e dúvidas sobre seu papel na seleção. O movimento expõe uma mudança acelerada na relação entre o craque e parte da opinião pública do país.
Enquanto a França avança na Copa do Mundo de 2026, impulsionada pelo desempenho de seu principal jogador, um movimento inusitado começou a chamar atenção fora dos gramados. A iniciativa tomou forma no site “Pardon Kylian” (“Perdão, Kylian”, em português), criado pelo francês François Kopp para reunir assinaturas de torcedores que admitem ter criticado o atacante antes do Mundial, em uma espécie de campanha nacional de reconciliação.
Lançada durante o torneio, a iniciativa rapidamente acumulou dezenas de milhares de assinaturas (na manhã desta sexta (3), eram cerca de 50 mil). Em poucos dias, a página passou de uma brincadeira entre torcedores para um fenômeno amplamente comentado na imprensa esportiva francesa.
A proposta é simples: oferecer a quem questionou Mbappé antes da Copa um espaço para reconhecer que estava errado. O próprio criador da campanha admite ter mudado de opinião logo na estreia francesa no Mundial. Em entrevista à imprensa francesa, Kopp afirmou que a reação foi imediata quando viu o atacante marcar contra Senegal. “Assim que ele fez o primeiro gol, coloquei as mãos no rosto e disse: perdão, Kylian.”
O tom da iniciativa é claramente humorístico, mas seu sucesso revela algo mais profundo sobre a trajetória recente do jogador. Durante meses, Mbappé conviveu com críticas relacionadas ao desempenho da seleção, à sua posição de liderança e até à sua imagem pública. O contraste com o que acontece agora é evidente. Em vez de questionamentos, o atacante voltou a ocupar o centro da narrativa esportiva francesa por aquilo que faz de melhor: decidir partidas.
A transformação da percepção em torno de Mbappé coincide com um início de Copa praticamente impecável. Em quatro partidas, o atacante participou diretamente de oito gols da França, com seis gols marcados e duas assistências. O desempenho o colocou entre os principais artilheiros do torneio.
Os números impressionam ainda mais quando observados em perspectiva histórica. Mbappé marcou três vezes dois gols em uma mesma partida —contra Senegal, Iraque e Suécia— e em todas elas foi o responsável por inaugurar o marcador da seleção francesa.
O rendimento mantém uma regularidade raramente vista na história das Copas do Mundo. Ao longo de 18 partidas disputadas em Mundiais, o atacante chegou à marca de 18 gols. A média é extraordinária mesmo quando comparada aos maiores nomes da história do futebol.
A comparação mais frequente na imprensa francesa tem sido com Lionel Messi. O argentino soma 19 gols em 29 partidas de Copa do Mundo, número próximo ao do francês, mas alcançado em um volume significativamente maior de jogos.
O simbolismo da campanha vai muito além do humor presente em seu texto e em suas metas extravagantes. Na prática, a petição funciona como um retrato da relação frequentemente contraditória entre os franceses e seus grandes ídolos esportivos. Poucos atletas encarnam essa dinâmica tão bem quanto Mbappé.
Ainda antes do Mundial, o atacante havia declarado que se sentia “odiado” por uma parcela da população. A afirmação repercutiu amplamente na França e alimentou debates sobre a cobrança dirigida ao principal jogador do país. A campanha criada por Kopp parte justamente desse contexto. Ao pedir desculpas coletivamente ao camisa 10, os participantes reconhecem, ainda que em tom de brincadeira, que o julgamento feito antes do torneio pode ter sido precipitado.
Há também um componente de autocrítica que ajuda a explicar o sucesso da iniciativa. O site transforma uma característica comum do futebol – a mudança rápida de opinião conforme os resultados – em uma espécie de piada compartilhada.
Boa parte da repercussão também está ligada aos objetivos propostos pela petição. O site estabelece diferentes metas de assinaturas, cada uma mais extravagante do que a anterior. Caso alcance 1 milhão de apoios, por exemplo, a página promete que Zinédine Zidane entregará pessoalmente a Mbappé um “Certificado Nacional de Perdão”. Em um patamar ainda mais elevado, de 5 milhões de assinaturas, a Torre Eiffel exibiria a mensagem “Pardon, Kylian” em letras gigantes.
A meta mais ambiciosa prevê que, com 10 milhões de assinaturas, o dia 20 de dezembro, aniversário do atacante do Real Madrid, se transforme oficialmente na “Jornada Nacional do Perdão”. Naturalmente, nenhuma dessas promessas deve ser interpretada de forma literal. Elas fazem parte do tom satírico que ajudou a campanha a circular nas redes sociais e na imprensa. Mas o humor não elimina o significado da mobilização. O êxito do site demonstra como a imagem pública de Mbappé foi reabilitada em poucas semanas graças ao desempenho na Copa.
A experiência não é exatamente nova para o futebol francês. A cada grande torneio, especialmente quando a seleção apresenta bons resultados, figuras antes contestadas costumam recuperar prestígio junto ao público. A diferença é que, desta vez, a mudança ocorreu de forma particularmente rápida e visível. A petição acabou se tornando um termômetro informal dessa transformação. Se a França continuar avançando no torneio, a tendência é que o movimento ganhe ainda mais adesões.
E caso Mbappé encerre a competição levantando a taça, como sugerem alguns dos criadores da campanha, a operação simbólica de “pedido de desculpas” poderá parecer menos uma brincadeira de internet e mais um retrato preciso da velocidade com que heróis e vilões trocam de lugar no futebol.



