O fenômeno climático El Niño, previsto para se intensificar no segundo semestre de 2026 e se estender até o início de 2027, promete trazer mudanças significativas para a logística de transporte de grãos na Amazônia. Enquanto as atenções se voltam para os efeitos que ele terá no Sul do Brasil, com a expectativa de chuvas excessivas, e no Centro-Oeste e Nordeste, onde a redução das precipitações é esperada, a região amazônica se torna um ponto crítico que merece atenção especial.
Historicamente, o debate sobre infraestrutura no Brasil tem se concentrado em rodovias e ferrovias, mas a logística fluvial na Amazônia pode ser severamente afetada se as previsões se confirmarem. A diminuição das chuvas resultará em um nível de água mais baixo nos rios, o que, por sua vez, comprometerá a navegação. Essa situação exige a dragagem dos leitos dos rios, um processo que, além de caro e burocrático, muitas vezes é iniciado tardiamente, sem o devido planejamento.
A dificuldade no transporte fluvial da Amazônia poderá forçar um aumento na utilização das rodovias, que nem sempre estão preparadas para suportar a demanda. O agronegócio, um dos setores mais impactados, já depende fortemente dos portos do Arco Norte para escoar sua produção. Em um cenário de preços baixos das commodities, o frete rodoviário pode aumentar em até 30%, enquanto o de cabotagem pode subir 20%. Nos primeiros cinco meses de 2026, as exportações de soja pelos portos do Arco Norte alcançaram 21 milhões de toneladas, representando 39% do total enviado ao exterior. No mesmo período, o milho teve uma saída de 2,5 milhões de toneladas, correspondendo a 34% do volume nacional, conforme dados do Boletim Logístico da Conab.
As dificuldades no escoamento das commodities têm reflexos diretos no setor de armazenagem. O Brasil deve colher uma safra recorde de 359 milhões de toneladas neste ano, segundo a Conab, mas a capacidade de armazenamento está limitada a 211 milhões de toneladas, conforme o IBGE. Mato Grosso, que tem aumentado sua dependência do Arco Norte para a exportação de grãos, enfrenta um dos maiores déficits de capacidade.
Além disso, a área de cana-de-açúcar disponível para colheita na região Centro-Sul do Brasil alcançou 9,2 milhões de hectares na safra 2026/27, um aumento de 3,1% em relação ao ciclo anterior. Essa expansão na área cultivada provoca uma troca na liderança entre os municípios produtores. Os doze municípios com maior extensão de cana agora representam 10,4% de toda a área mapeada na região. Dados da Serasa Experian, obtidos por meio de imagens de satélite, mostram que Nova Alvorada do Sul (MS) agora ocupa a primeira posição, enquanto Nova Andradina (MS) surge entre os líderes, superando Guaíra (SP).
Essa mudança na liderança é também resultado da renovação dos canaviais, segundo Dyego Santos, gerente executivo de soluções agro da Serasa Experian. O mapeamento revela que São Paulo continua a dominar a área cultivada no Centro-Sul, com 57,1% da área disponível para colheita, o que equivale a 5,24 milhões de hectares, seguido por Goiás e Minas Gerais, ambos com 12% da área apta para colheita.




