O ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, declarou nesta terça-feira (23) que o atual governo do país está “forçando uma guerra civil” por meio de uma política neoliberal. Em uma entrevista à agência AFP, realizada na região do Chapare, onde se encontra refugiado, Morales criticou a gestão do presidente Rodrigo Paz, que, segundo ele, tem gerado descontentamento e protestos em várias cidades bolivianas nos últimos meses.
Nos últimos sete semanas, a Bolívia enfrenta uma grave crise, marcada pela escassez de alimentos, combustíveis e medicamentos, resultado de bloqueios de estradas em protesto contra o governo de centro-direita. Paz, que assumiu o poder após 20 anos de governos de esquerda, atribui a responsabilidade pelos tumultos a Morales e, no último sábado (20), decretou estado de exceção para tentar controlar a situação.
“Não vou me render”, afirmou Morales, em resposta às ameaças do governo de intervir em sua base de apoio no Chapare, onde ele ainda conta com o apoio de muitos simpatizantes. Ele ressaltou que, apesar da pressão, não pretende negociar sua sobrevivência política. “Quem negocia a sua sobrevivência não é digno”, disse.
A entrevista foi realizada em Lauca Eñe, onde apoiadores de Morales se reuniram, alguns armados com armas rústicas. O ex-presidente enfrenta um mandado de prisão relacionado a um suposto caso de tráfico de menores, que ele classifica como uma “perseguição” política.
Ao ser questionado sobre os protestos, Morales afirmou que eles representam uma revolta contra o modelo neoliberal e a falta de autoridade do governo. Ele acredita que a situação de insatisfação popular continuará, a menos que haja mudanças significativas na estrutura econômica do país. “Se não houver um plano para reativar a economia estatal, continuará havendo rebelião e agitação”, alertou.
Morales também comentou sobre a possibilidade de uma intervenção militar no Chapare, afirmando que a população local está bem organizada e pronta para se defender. Ele enfatizou que, caso ocorra uma tentativa de intervenção, haverá resistência. “A guerra da coca é muito mais do que a guerra por água ou gás”, disse, referindo-se à importância da folha de coca para a economia local e à soberania do povo boliviano.
Sobre as acusações de tráfico de menores, Morales as desqualificou como um processo inventado, ressaltando que não há provas de envolvimento com narcotráfico ou corrupção. Ele vê a situação como uma tentativa de desacreditá-lo politicamente.
Por fim, o ex-presidente comentou sobre a possibilidade de convocar novas eleições como uma saída para a crise política, mas reiterou que não pediu a renúncia do presidente Paz. “A questão é evitar que se privatizem a luz, a água, as telecomunicações e os recursos naturais”, concluiu Morales, deixando claro que a luta pela soberania e dignidade do povo boliviano continua.




