A recente análise da economista Cecília Machado, colunista da Folha, destaca os efeitos adversos do crescente endividamento das famílias sobre o crescimento econômico do Brasil. Ela aponta que o aumento da dívida pode trazer consequências negativas a médio prazo, uma afirmação respaldada por estudos significativos na área. Entre eles, o artigo “Indebted Demand” de Atif Mian, Ludwig Straub e Amir Sufi, publicado em 2021 no The Quarterly Journal of Economics, que explora a relação entre o endividamento e o crescimento do PIB.
Outro estudo relevante é o “Understanding the Macro-Financial Effects of Household Debt: A Global Perspective” do FMI, que corrobora a ideia de que, embora o endividamento possa impulsionar o crescimento econômico no curto prazo, ele traz um custo no médio prazo, um fenômeno conhecido como “debt overhang” ou “ressaca de endividamento”. Essa ressaca tende a ser mais intensa quanto maior for o aumento da alavancagem das famílias e quanto maior for a participação do crédito imobiliário nesse aumento, devido aos longos prazos de amortização.
No Brasil, os níveis de endividamento das famílias atingiram patamares recordes, conforme discutido em uma coluna anterior sobre o programa Desenrola 2.0. É importante ressaltar que grande parte desse aumento ocorreu em 2021 e 2022, quando a taxa Selic estava em níveis historicamente baixos, favorecendo o acesso ao crédito, especialmente o imobiliário, com taxas em torno de 6% a 7% ao ano.
De acordo com os estudos mencionados, a ressaca do endividamento costuma se manifestar entre três a cinco anos após um aumento significativo das dívidas. Assim, estamos exatamente nessa janela crítica. A expectativa é que, em 2027, essa ressaca se torne evidente, especialmente após o período eleitoral, que tradicionalmente está associado a impulsos fiscais e parafiscais, visando a reeleição de governantes.
Uma consequência que não parece estar sendo devidamente considerada pelos analistas é que os “debt overhangs” tendem a reduzir a taxa de juros de equilíbrio da economia, devido à diminuição da demanda e da oferta de crédito. Atualmente, o Banco Central estima que essa taxa neutra esteja entre 5% e 5,5% em termos reais, o que corresponderia a uma Selic entre 9,3% e 9,8% ao ano, considerando as expectativas para a inflação. No entanto, alguns analistas sugerem uma taxa neutra mais elevada, acima de 6% reais, o que não leva em conta a probabilidade do fenômeno discutido.
Portanto, é crucial que os analistas e formuladores de políticas considerem esses fatores ao projetar cenários econômicos futuros, a fim de evitar surpresas desagradáveis e preparar o terreno para um crescimento sustentável e equilibrado no Brasil.



